Batuque

Orixás

No período da escravidão, vieram junto com os escravos nos porões dos navios da Nigéria e do Benin, as principais raízes dos cultos afro-brasileiros, o Candomblé da Bahia, o Xangô de Pernambuco, o Tambor de Mina do Maranhão e o Batuque do Rio Grande do Sul. Existem por aqui diversas casas de Batuque que seguem os preceitos de determinada Nação (Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda, Nagô...), porém os Orixás cultuados são os mesmos em quase todos os terreiros, os assentamentos têm rituais e rezas muito parecidos, sendo que basicamente as diferenças entre as Nações são o respeito às tradições próprias de cada raiz ancestral e a sua formação religiosa e cultural passada por seus antecedentes, visto que seu culto é vivido e transmitido oralmente na vivencia de seus integrantes. Cada pessoa possui três Orixás protetores, da cabeça, do corpo e dos pés, sendo que todos possuem o orixá Bará nos pés, mudando apenas sua qualidade. No ato de fazer a cabeça, a pessoa dedica todo sua vida ao cuidado ao Orixá em troca de proteção do mesmo. Para sabermos quais serão os Orixás que regerão determinada pessoa, é necessário que seja feito um jogo de búzios. Os Orixás cultuados no Batuque em sua maioria são doze: Bará, Ogum, Iansã, Xangô, Odé, Otim, Ossanhe, Obá, Xapanã, Oxum, Iemanjá e Oxalá. O culto aos Ibejis varia de acordo com a Nação, sendo que em algumas são associados e considerados como qualidades de Xangô e Oxum. Normalmente o Batuque começa a meia-noite e estende-se até as seis ou sete horas da manhã, isto também é uma influência dos escravos, já que os negros na época da escravatura podiam fazer seus rituais somente após terminados seus trabalhos para os seus senhores, ou esperar com que eles fossem dormir. Não é costume o uso de paramentas no Batuque, geralmente as mulheres usam saia e bata e os homens um tipo de bombacha bem larga e uma kafta, além das guias. As obrigações no Batuque são constituídas por fases divididas: o serão, a festa de batuque e a levantação. Na primeira semana realiza-se o amaci, o bori e a festa de batuque. Na segunda semana é feito o serão de quatro-pés e por fim realiza-se a festa de Batuque com a mesa de Ibeji. Neste dia, são distribuídos mercados  (bandejas contendo todo tipo de culinária dos Orixás) significando a divisão da fartura e da prosperidade com os participantes da festa. Finalizando esta primeira fase ritual, é realizada a terminação com a obrigação de peixe. Na segunda- feira é feita a apresentação do iniciado à cidade, o passeio. Pela manhã bem cedo se vai ao mercado, a praia, e por fim tem o café da manhã que é tomado na casa de um irmão de religião mais velho ou na casa de outro Babalorixá. O Babalorixá tem a responsabilidade de formar novos sacerdotes, que darão continuidade aos rituais. Para isso é preciso preparar novos filhos de santo, passando a eles todos os segredos referentes aos rituais, tais como: o uso das folhas, execução de trabalhos e oferendas, interpretação do jogo de búzios e até mesmo como iniciar e preparar um futuro sacerdote. O tempo de aprendizado é longo, já que os ensinamentos são feitos oralmente, sendo que a melhor maneira de aprender é tendo dedicação e conviver o máximo de tempo dentro do terreiro.  Nossa tradição guarda o axé (força) de cada Orixá em um Okutá (pedra) que é colocada em uma vasilha junto a outras “ferramentas”, que ficam sob a guarda do Babalorixá ou Yalorixá; mas a força maior está solta na natureza, apenas parte dela, simbolicamente fica no Okutá. Nas cerimônias para convocar os Orixás, tradicionalmente, é feito através de cantos acompanhados com o toque dos tambores, com ritmos identificados para cada divindade. As cerimônias são diversas, são ofertados presentes, comidas diferentes para cada um e sacrifícios que envolvem animais de quatro pés e aves; tirando a parte dos Orixás toda carne é consumida pelos participantes e membros da comunidade. Aos orixás rogam-se proteção, saúde, paz, em fim, pedidos específicos às necessidades de cada um em particular. Um caminho que nos faz ter contato com os Orixás é através ocupação; este é o processo pelo qual a divindade se manifesta em seu filho(a) que passou pelos mais diversos rituais de iniciação. Contudo há casos de ocupação de não iniciados. É possível uma pessoa estar assistindo um ritual pela primeira vez e se identificar com as forças espirituais energéticas referentes ao seu Orixá, e ter esta manifestação espontânea. Na maior parte, a manifestação dos Orixás acontece em dias de festas. No batuque, nestas ocasiões, podemos falar; pedir auxílio, consultar, abraçar e ser abraçado por eles; em fim pode-se ter um contato direto com os mesmos. Uma das características  do Batuque é o fato de o iniciado não poder saber, em hipótese alguma, que foi possuído pelo seu Orixá, sob pena de ficar louco. Na realidade o questionamento não está no problema da loucura como consequência, e sim no fato de que ao saber que se ocupa, a pessoa pode ceder a vaidade extrema e desta forma banalizar um princípio básico dos Orixás, que está na humildade e desapego material. O Orixá novo não possui o direito de falar, só terá o mesmo quando por decisão do Babalorixá, a passar por um ritual fechado, que lhe dará o direito da fala. Quando o Orixá deseja subir (ir embora), é feito um ritual rápido para que ele seja despachado, devendo o Orixá ficar em "axêre", que é o intermédio entre o Orixá e o estado de consciência humana. Neste momento a pessoa age sob manifestação do Orixá, porém como criança, falando e agindo com infantilidade (neste momento todos os Orixás possuem o direito de falar), comendo doces, tomando refrigerantes e fazendo brincadeiras. Passado o período necessário, o axêre deita no ombro de algum filho próximo e entra em um sono profundo para logo depois acordar como em um susto. 

Amaci ou Mieró
É a primeira obrigação da iniciação. Depois de jogada e confirmada nos búzios a cabeça e as passagens do filho, é feito o amaci, que é um ritual realizado com ervas específicas de cada Orixá, maceradas na água onde o Babalorixá lava a cabeça do filho que fará a obrigação, enquanto tira-se o Erí, ou seja, a reza do Babalorixá. 

Aribibó
O Aribibó é a obrigação realizada com um casal de pombos pertencentes ao Orixá. Nesta obrigação não é feito nenhum tipo de assentamento, visto que se trata de um reforço ou até mesmo um axé de saúde.

Bori de aves
O Bori de aves é a obrigação em que o filho-de-santo reafirma sua convicção dentro da religião. É feito como uma preparação para o aprontamento, ou como um "reforço de cabeça", que tem como objetivo melhorar as condições gerais do filho-de-santo. Na obrigação do bori são sacrificados galos ou galinhas da cor pertencente ao Orixá de cabeça e para o Orixá que rege o corpo da pessoa. São consagrados alguns objetos que juntos também se chamam bori: uma manteigueira de vidro ou porcelana, uma moeda antiga, alguns búzios (de acordo com o número de axé do Orixá) e uma quartinha (espécie de vaso de barro com tampa). Estes objetos são colocados dentro de uma vasilha, juntamente com as guias e recebem o sangue (axorô) dos animais sacrificados, vasilha esta que fica no colo do filho que está sendo borido, enquanto este fica sentado no chão.O Babalorixá faz as marcações no corpo do filho da mesma forma que foi feita no aribibó, com a diferença de serem sacrificados além de pombos, galos ou galinhas, de acordo com o Orixá dono da cabeça do filho-de-santo. Na continuação da obrigação de bori conservam-se as mesmas etapas do aribibó, porém no bori há uma testemunha a quem chamamos de padrinho ou madrinha de cabeça, devendo-se total respeito ao padrinho, que deverá ser alguém com feitura, filho-de-santo pronto, pois é o padrinho ou madrinha que deverá ser procurado caso o afilhado necessite de orientação e o Babalorixá estiver impossibilitado de auxiliar o filho-de-santo.  A reclusão do filho de santo que está sendo borido varia de 03 a 04 dias em média. Durante este período o borido reduz ao máximo suas atividades e movimentos, permanecendo a maior parte do tempo deitado ao chão. Após o batuque e o término do período de reclusão levanta-se a obrigação e monta-se o bori: Faz-se uma cama de algodão dentro da manteigueira e põe-se a moeda ao centro rodeada pelos búzios. Cobre-se com bastante mel. O Bori é considerado a "cérebro" do indivíduo, portanto exige certos cuidados, não deve ser mexido, a quartinha deve estar sempre com água e deve ser reforçado de tempos em tempos com nova obrigação. Nesta obrigação o filho estreita sua relação com o Orixá, sendo para alguns, a principal obrigação do Batuque onde o filho-de-santo estreita sua relação com o Orixá, tornando-se assim um filho da Religião.

Bori de Meio Quatro Pés
É considerado como preparação para o aprontamento, isto é, antecede o Bori de Quatro-pés. Esta obrigação é feita para filhos que já tenham feito bori de aves e também pode ser feito como reforço, para os que já são filhos prontos. É sacrificado um casal de galinhas d'angola se o filho-de-santo pertence a um Orixá de frente, casal de marrecos se o filho-de-santo pertencer á Oxum ou Oxalá ou então, um casal de patos se for filho de Iemanjá. A feitura de um Bori de Meio Quatro-Pés, vai depender da necessidade e/ou da exigência de seu Orixá.

Bori de Quatro Pés
Considerado como apronte de cabeça, principalmente quando junto ao Bori ocorre o assentamento do Orixá de cabeça do filho-de-santo. Ocasião onde se consagra não somente o Bori, mas também os objetos místicos: as ferramentas e o ocutá onde será fixado o Orixá e a guia delegum, guia com vários fios de contas que variam em número e cor de acordo com o axé do Orixá. É sacrificado um animal de quatro patas de acordo com o Orixá do indivíduo. A partir desta obrigação, aumentam as responsabilidades do filho-de-santo. O período de reclusão varia de 06 até 20 dias ou mais. 

Aprontamento 
O aprontamento corresponde ao estabelecimento oficial e definitivo do vínculo entre iniciado e Orixá. Entretanto este vínculo precisa ser renovado de tempos em tempos, pois o ato de colocar axorô na cabeça implica na idéia de alimentar o Orixá e fortalecer o seu filho. O aprontamento sempre ocorre na obrigação que chamamos de matança e o principal passo do aprontamento é o corte dos animais ofertados a cada um dos Orixás a serem assentados em cima da vasilha que contém os objetos a serem consagrados.

Obrigação do Peixe
São sacrificados aos Orixás peixes vivos, pela manhã cedinho, e somente depois que as obrigações de quatro-pés forem levantadas. O peixe varia de acordo com o Orixá a receber a obrigação, e sua quantidade varia de acordo com o axé de número do mesmo. Os Orixás de frente recebem pintado como obrigação e os Orixás de praia recebem jundiá. No Quarto-de-santo são imolados ao menos um peixe para cada Orixá e a ele é destinado: a cabeça, as barbatanas, a cauda e um pouco de axorô (sangue). A carne dos peixes imolados é servida com pirão (ebó) no almoço e deve ser consumida pelos filhos que estão de obrigação e pelos que estão na casa, pois o ebó de peixe simboliza fartura e prosperidade. Uma quantidade maior de peixes é preparada frita para ser servida ao povo que comparecer ao batuque de encerramento ou no Toque do Peixe - toque realizado na noite do corte do peixe, porém com duração mais curta quando serão consumidos o ebó do peixe e peixes fritos, além das comidas dos Orixás.

Axés de Obé e Ifá (Facas e Búzios) 
O filho-de-santo é agraciado com os axés de Obé e Ifá, quando o Babalorixá ou Yalorixá perceber o desenvolvimento, o empenho e o merecimento do filho para com suas obrigações e o comprometimento com seus Orixás e com os fundamentos da Religião. Significa que o Babalorixá tem extrema confiança no filho que irá receber os axés, tanto em relação aos seus conhecimentos, quanto ao seu caráter e honestidade, pois é através do Ifá que se auxilia quem precisa de orientação e com a Obé realizamos os cortes para os Orixás. A entrega destes axés ocorre no Batuque de terminação, geralmente no sábado posterior ao Batuque Grande. Quando for entregue os axés, os objetos que compõe o jogo de Ifá e as facas deverão ser colocados em uma bandeja enfeitada com flores e folhas e se fará o ritual de entrega. O padrinho ou madrinha segurará uma vela acesa testemunhando a obrigação. A partir de então o filho-de-santo é considerado pronto, isto é tem sua obrigação completa com o assentamento de todos os Orixás e os axés de obé e ifá. Depende agora de seu desenvolvimento e aptidão e, com o consentimento de seu orixá-de-cabeça e de seu Babalorixá poderá ter seu próprio Ilê.

A Festa do Batuque
Após as obrigações cumpridas e encerrada a levantação, será tocada a festa, o Batuque. O Babalorixá, ajoelhado em frente ao quarto de santo, juntamente com todos seus filhos e demais convidados, toca o adjá, fazendo a chamada de todos os Orixás de Bará a Oxalá com suas saudações específicas, pedindo a cada Orixá as coisas que a eles competem. Terminada a chamada, o Babalorixá autoriza o tamboreiro a começar o toque, que correrá em ordem de Bará a Oxalá. Todos que estão na roda dançam com as características de cada Orixá ao qual está sendo tocada a reza.

Dentro da Festa existem rituais específicos que chamamos de “Axé”:

Axé da Balança ou Roda de Prontos
Se a obrigação que originou a festa teve o corte de quatro-pés, deverá ser realizada dentro das rezas para Xangô, a obrigação da balança ou cassum em homenagem a Xangô e também por conter o axé de todos os Orixás em equilíbrio. Há um intervalo na movimentação da roda e os presentes, inclusive os Orixás afastam-se do centro do salão, deixando espaço para a roda da balança. Neste ritual participam só os prontos colocados lado a lado, formando uma roda de mãos dadas, dançam ao ritmo do tambor que vai gradualmente aumentando de intensidade. É quando ocorre o maior número de ocupações ao mesmo tempo. Ao terminar a balança os Orixás cumprem o fundamento: vão ao Quarto-de-santo, depois até a porta da rua para cumprimentar os Orixás da rua e depois dançam ao som do Alujá de Xangô e do Alujá de Iansã, erís destinados unicamente pelos Orixás de frente. Há a crença de que a balança não pode ser aberta, isto é, as pessoas devem permanecer de mãos dadas até que se inicie o alujá, sob pena de morte para algum filho da casa. Mas caso haja alguma ameaça de arrebentar a balança, cabe ao alabê mudar imediatamente o axé indo direto para a execução do Alujá de Xangô. Por causa desta crença, muitas pessoas esquivam-se de participar da balança, porém é uma obrigação muito forte e o axé que emana no salão durante a balança é algo sentido por todos os presentes. 

Alujá de Xangô e Alujá de Iansã 
Logo após a balança, os Orixás que estão no mundo dançam o Alujá do Xangô e de Iansã, respectivamente. São ritmos do tambor, característicos destes Orixás. Durante o alujá é contagiante o axé e a empolgação com que os orixás dançam, proporcionando um momento de rara beleza. 

O Aforiba ou a Dança do Atã 
O aforiba é o momento em que Ogum e Iansã demonstram a passagem em que Iansã embebeda Ogum para fugir com Xangô. O Babalorixá convida um Ogum e uma Iansã para fazerem o Aforiba, então ele coloca no centro do salão duas garrafas contendo atã (aforiba) e as armas pertencentes a estes Orixás (espadas). Iansã toma as garrafas e oferece á Ogum que logo se embebeda, mas em seguida Ogum volta a si e vai atrás de Iansã empunhando sua espada. Os dois lutam, mas Iansã consegue acalmar Ogum e os dois reconciliam-se e voltam a dançar juntos. Tendo um Xangô no mundo poderá vir a fazer parte do Aforiba. Xangô vem em defesa de Iansã e com seu machado de dois gumes entra na luta com Ogum. Aí então, Iansã acalma os dois Orixás. 

Axé do Ecó
Terminado os Erís de Xapanã é hora da Saída do Ecó, que nada mais é do que o despacho do axé de Bará, e do ecó de Bará Lanã e do Bará Lodê (alguidar com água, farinha de mandioca e gotas de epô) e do ecó de Oxum (Vasilha de vidro com farinha de milho, água, mel e perfume e flores) que servem como imãs de energias negativas. A saída do ecó simboliza a saída de toda a negatividade que existe no ambiente e nas pessoas presentes. Prepara o ambiente para os erís dos Orixás mais velhos, que tem um toque mais brando. Enquanto sai o ecó, os alabês continuam puxando os erís, só que agora puxam os erís dos Orixás da rua - Bará Lodê, Ogum Avagã e Iansã Timboá - não há movimento da roda e a assistência evita olhar para o que está acontecendo, virando para a parede. Diz a crença que quem olhar a saída do ecó atrai para si a negatividade ali contida.

Roda de Ibeji 
No Batuque de Quatro-pés há a roda de Ibejis, no JÊe-Ijexá ela acontece durante os erís de Oxum. É o momento em que as crianças participam da obrigação e as mulheres que pretendem a maternidade ou que estão grávidas fazem os seus pedidos e agradecimentos. Os orixás, principalmente Oxum e Xangô, distribuem aos que estão na roda e na assistência, as frutas e os doces que estão no Quarto-de-santo.

Axé dos Perfumes 
Sendo Oxum a deusa da beleza adora perfumes, espelhos, em seus erís há um momento especial em as Oxuns que estão no mundo recebem vidros de perfumes, leques e espelhos. Dançam felizes, empunhando seus leques e espelhos enquanto outras se banham com perfume e distribuem um axé perfumado as pessoas que estão na roda e na assistência. Este axé faz uma referência sobre a passagem em que Oxum está no rio banhando-se, num ritual de beleza e encantamento.

Axés dos Presentes 
Geralmente acontece quase no final do Batuque, os Orixás que estão aniversariando apresentam seus bolos, enquanto são saudados pelos presentes. Depois os bolos são servidos aos convidados e o excedente é distribuído juntamente com os mercados. São de costume também, os convidados ofertarem presentes ao Orixá do Babalorixá ou Yalorixá por ocasião de seu aniversário de aprontamento. Os presentes mais comuns são flores, perfumes, doces, utensílios que podem ser usados no dia a dia Ilê...

O Axé do Alá de Oxalá 
Pertence aos erís do Oxalá o axé do Alá. Em determinado momento, os filhos de santo com estatura mais elevada suspendem ao alto um grande Alá branco. Enquanto a roda e os erís continuam, todos passam por baixo do Alá pedindo ao Orixá do branco a paz e a proteção.

Os Axêres 
Conforme o Batuque vai acontecendo, os Orixás chegam e "sobem", vão embora. Os orixás são despachados, geralmente por filhos de santo mais antigos e experientes do Ilê, porém eles ficam em "axêre" ou "axêro" , estado intermediário entre a ocupação do Orixá e da pessoa propriamente dita. Os axêres agem como crianças, tomam refrigerante e adoram fazer brincadeiras com as pessoas, pois seu linguajar é confuso e eles trocam bastante as expressões. É um momento de descontração, porém deve ser mantido o respeito, pois apesar de fazerem brincadeiras, os axêres ainda conservam a essência do Orixá. 

Mesa de Ibeji 
A obrigação da Mesa de Ibeji é feita no Batuque de Encerramento e nas ocasiões em que o Babalorixá ou Yalorixá acharem necessárias. É realizada no início da noite e antecede o Batuque de Encerramento. Dela participam crianças de zero á doze anos, além de mulheres grávidas, ou que queiram engravidar. São cantados erís de Bará, de Xangô e Oxum (que representam os Ibeji) e dos Orixás velhos. A Mesa de Ibeji é riquíssima de detalhes e constitui uma obrigação religiosa com muito axé e beleza. Significa agradar e reverenciar aos Orixás das crianças que simbolizam pureza, paz e prosperidade. Uma grande toalha branca é colocada ao chão e nela colocam-se frutas, amalá, flores, uma quartinha, brinquedinhos, bolo, doces e refrigerantes. As crianças sentam-se ao redor da toalha, as menores acompanhadas por um adulto. Servem-se para as crianças: primeiramente canja de galinha, depois os doces e refrigerante. Após terem comido o que foi servido, são dados ás crianças uma colher de mel e um gole de água. Depois são lavadas e enxugadas as mãos das crianças. Terminadas estas etapas as crianças são levantadas da mesa por pessoas adultas ou por Orixás que tenham chegado e conduzidos a formarem uma roda ao som de erís de Xangô. Encerrada a Mesa, os Orixás que chegaram recolhem os itens que ainda restam na mesa e levam até o quarto de santo. Os brinquedos são distribuídos entre as crianças que participaram.

Toque de Encerramento 
É o toque que encerra as atividades públicas do batuque grande. Tem uma proporção um pouco menor do que o primeiro toque, pois é antecedido pelo corte do peixe e do corte de confirmação, quando são imoladas somente aves aos Orixás. A cor dos axós é preferencialmente o branco e pode acontecer a Mesa de Ibedji antes do início do toque. É nesta noite que serão dados os axés de Obés e Ifá. Seguido do toque, no dia posterior há a levantação da obrigação do corte de confirmação. 

A Levantação da Obrigação 
Terminada o período em que a obrigação deve ficar arriada, há a levantação, termo que se refere ao ato de levantar as vasilhas contendo as obrigações de corte que estavam arriadas, limpa-las e guarda-las nas prateleiras dentro do quarto de santo. Mantendo um costume desde o tempo dos escravos, as obrigações são guardadas e ocultas por cortinas que geralmente tem a sua frente velas, castiçais, comidas de santo, flores e outros objetos sagrados pertencentes aos Orixás.

O Passeio 
O término da obrigação para os filhos de santo que estão em reclusão é o passeio no dia posterior a Levantação. Pela manhã, o Babalorixá ou Yalorixá os leva até a porta da frente do Ilê e apresenta-os à rua (aos Orixás da Rua), liberando-os para saírem fora dos limites do Ilê. Vão até o centro visitar lugares de grande significado: a igreja, o mercado público (onde compram cereais, grãos, e velas ) e o rio Guaíba. Em seguida, vão visitar algum Ilê conhecido onde batem cabeça cumprimentando os Orixás do Ilê e lá depositam parte das compras feitas no mercado. De volta ao Ilê, batem cabeça no quarto de santo e arriam o restante das compras feitas. Cumprimentam o Babalorixá ou Yalorixá na nova condição de filho de santo.


As Quinzenas
As quinzenas são obrigações menores que duram normalmente dois ou três dias onde é feito a matança e o toque. É frequentado por um número não muito grande de pessoas e geralmente estão associadas a alguma data comemorativa ou a obrigação de bori de filhos de santo do Ilê. Há o toque das rezas, as comidas de santo são ofertadas aos Orixás e as tradicionais comidas servidas ao povo: canja, canjica branca e amarela, amalá. Por ser uma obrigação menor, exige um mínimo de aves a serem sacrificadas. A carne das aves é consumida nos intervalos do toque do tambor, servida enfarofada ou na canja, comidas tradicionalmente ofertadas às pessoas que comparecem ao ebó. Há ainda as "quinzenas secas", quando não há sacrifício de animais. 

40 comentários:

  1. Gostei! Parabéns... foi muito útil e esclarecedor, foi bom conhecer um pouco mais a fundo essa religião maravilhosa. Mas ainda tenho algumas dúvidas... tipo: É verdade que quando a gente joga búzios e PEDE para SABER quem é o ORIXÁ DE CABEÇA a gente fica meio q OBRIGADO A ENTRAR NA RELIGIÃO??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Deise
      Que bom que você esteja gostando do blog... Respondendo a sua pergunta, o fato de você saber quem é o Orixá que governa sua cabeça, não a obriga a entrar para a religião. Aliás você nunca será obrigado, se essa não for a sua vontade. Nem todas as pessoas que frequentam um terreiro, que fazem oferendas ou tomam banhos, que vão às sessões ou aos batuques, são iniciadas. Elas se sentem bem somente por estarem lá, vão, se consultam, se descarregam, batem cabeça e às vezes participam ativamente de tudo o que acontece, o que não as obriga a serem filhos da casa.

      Excluir
  2. Muito obrigada!! Que bom que tive resposta, fiquei muito feliz! Que os orixás iluminem cada vez mais a todos nós e recompensem a vocês pelo trabalho tão bem realizado! Valeu mesmo, estou muito grata. BjU!!

    ResponderExcluir
  3. Um tempo atrás joguei búzios, e a mãe de santo disse que eu pertencia e tinha nascido para a religião, e era filha de Oxum. Realmente, desde criança sempre tive mediunidade bem avançada, MUITO MESMO. Tipo... ver espiritos, ouvir, sentir, sonhar coisas antes de elas acontecerem. Quando ela disse que ao saber meu orixá de cabeça EU DEVERIA ENTRAR NA RELIGIÃO, fiquei muito assustada. AMO e ADMIRO muito a religião, mas REALMENTE não quero entrar. Mas também não quero me afastar entende? Bom, era isso. E quero de novo parabenizar o Blog de vocês é de muita qualidade e realmente sério com informações muito esclarecedoras. Muita Luz a todos, e Obrigada. Com carinho,

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Deise, se você tiver outras dúvidas e estiver ao nosso alcance, pode ficar a vontade para perguntar que teremos o maior prazer em responder. No caso em questão, se você não se sente preparada a entrar para a religião, ou até mesmo não tem essa vontade, nada te obrigará a fazê-lo. Como falamos anteriormente, você pode se envolver de todas as formas dentro da Umbanda ou do Batuque sem ser iniciada. Não há nada que te impeça disso. Orixá não quer que as pessoas façam religião por obrigação, e sim por amor.
      Axé!

      Excluir
  4. Estou aliviada, e muito feliz com atenção de vocês. Muito obrigada!! Bjãozinhos... Deise.

    ResponderExcluir
  5. Bem esclarecedor teu blog, parabéns! Em poucos dias vou fazer meu Borí de Aves, estou muito feliz em estender meus laços com minha mãe Oyá...

    ResponderExcluir
  6. queria saber se não ser iniciado na religião, e usar guia vai me prejudicar em alguma coisa ?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De forma alguma a guia te prejudicaria, ela só serve para proteção independente se você é iniciado ou não.

      Excluir
  7. Buenas noches, ustedes podrían contestar si está prohibido que el Pai sea pareja de un hijo/a de su Ile?

    ResponderExcluir
  8. Olá, sim é extremamente proibido um Pai ou Mãe de Santo se envolver fisicamente com um filho.

    ResponderExcluir
  9. Olá,
    sou Yalorixá e gostaria de deixar aqui ,expresso o quanto é esclarecedor um blog como o seu.
    infelizmente muitos ainda acham que nossa amada nação é coisa do mal,por que não procuram esclarecimentos e vc com palavras simples conseguiu abordar bem todos os momentos dela.
    grande abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Loraine
      Obrigado pelas palavras, tudo que escrevo no blog é fruto de muita pesquisa e feito com muito amor pela divulgação da nossa linda religião.

      Excluir
  10. Parabéns pelo blog Yalorixá, meus parabéns mesmo, se tivesse mais pessoas como a senhora, certamente teríamos um conhecimento melhor da nossa religião. Esta é minha primeira visita ao blog, e já vou adiciona-lo em meus favoritos. Ainda não olhei tudo, mas gostaria de fazer um pedido(caso não existe no blog) pra senhora colocar quais são os orixás principais do batuque e em ordem de "hierarquia" tipo na Umbanda é Oxalá Ogum, Yemanjá, Yansã, Oxóssi, Oxum e Xangô e são somente 7, sendo que na religião do batuque, uns dizem que são 8, outros falam que são 11, gostaria de saber disso se não for encomodar.
    Mais uma vez, Parabéns pelo seu blog, que os Orixás continuem lhe abençoando!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Luiz
      Muito obrigado pelos elogios, fico muito feliz que tenha gostado do blog, porém não sou Ialorixá, tudo que escrevo aqui é resultado de muita pesquisa e muito amor pela nossa religião que infelizmente é tão difamada por algumas pessoas... Respondendo a sua pergunta, do lado esquerdo das postagens se encontra fotos de cada um dos Orixás cultuados no Batuque, em ordem hierárquica. Ao clicar nelas abrirá uma tela com características detalhadas sobre cada um deles. Em nossa Nação cultuamos doze Orixás: Bará, Ogum, Iansã, Xangô, Odé e Otim, Ossanhe, Obá, Xapanã, Ibejis, Oxum, Iemanjá e Oxalá.
      Se tiver mais alguma dúvida fique a vontade para perguntar, se tiver ao meu alcance ficarei feliz em responder. Axé!

      Excluir
    2. Bom dia a ordem dos 12 Orixás não seria essa?
      Bará, Ogum, Iançã, Xangô, Odé e Otim, Obá, Ossanhe, Xapanã, Ibejis, Oxum, Iemanjá e Oxalá!
      grato e parabéns!

      Excluir
    3. Oi Alan, isso varia de cada casa, algumas não cultuam Ibejis.

      Excluir
  11. Boa noite Luciana, mais uma vez, agradeço sua resposta. Ja li quase todo o blog, e estou viciado no mesmo rs, é muita informação útil que muitos babas e yalorixas omitem até mesmo de seus filhos. Quanto a resposta da ordem e quantidade dos orixás cultuados, me veio a seguinte dúvida. sendo 12 os orixás cultuados, como funciona o sistema de buzios? Pois no sistema do Keto por exemplo, são 16 buzios, onde respondem 16 orixás, sendo eles: Exu, Ogun, Obaluaie, Yemanjá, Oxum, Logun edé, Omolu,Oxaguiã, Oxossi, Oxalufã, Yansã, Xango, Nanã, Oxumaré, Obá/Ewa e Ifá/Orunmilá. Levando isso em consideração, quais são os 16 orixas que respondem às 16 caidas do jogo de buzios no batuque?
    Outra questão que me veio a mente, é que, durante o "Apronte" o filho da casa, fica uns determinados dias, "deitado" em um quarto de santo, qual é o objetivo espiritual deste procedimento? em que o filho só pode comer quando lhe é servido comida, e levantar somente com a permissão do Cambone ou Zelador que está o cuidando dentre demais restriçoes? Gostaria de entender o objetivo disso, do por que que o filho tem que passar por isso. Mais uma vez, agradeço pela disposição e pelo tempo que dedica a nossa religião.

    Att,
    Luiz de Oxalá

    ResponderExcluir
  12. Oi Luiz
    Aqui no RS nem todos jogam com 16 búzios, alguns jogam com 12 e outros com 8. Os Orixás que respondem no jogo são os mesmos 12, sendo assim tudo depende da interpretação da caída e não da quantidade de búzios utilizada.
    Quanto a sua outra dúvida, segundo Pierre Verger, essa reclusão "simboliza a passagem para o além, entre a antiga existência profana e a nova, consagrada ao Deus". Dessa forma, os iniciados teriam de reaprender todas as atividades cotidianas em uma "atitude de completa submissão, revelando que passaram a um estado de crianças de tenra idade."

    ResponderExcluir
  13. Parabéns! De muita clareza sua explanação e ricamente guarnecida de detalhes! Traduz fielmente os fundamentos de nossa Nação!
    Enquanto até os dias de hoje nossas tradições eram transmitidas apenas oralmente, agora com a variedade de recursos de comunicação que temos, são de extremo valor publicações tão completas e claras! Mais uma vez, parabéns!!
    Que os bons ventos soprem sempre em sua direção!
    Muito axé a todos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Charlene obrigado pelos elogios, axé!

      Excluir
  14. Parabéns! Pelo maravilhoso trabalho.Fui a uma festa no terreiro, nunca vir coisa mais linda, só que um orixá mim chamou e mim abraçou.O que isso significa?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Talvez o Orixá quis lhe passar seu axé, aquilo que você precisava no momento

      Excluir
  15. Excelente seu blog.
    A dúvida sobre a balança é: os orixás do mel, participam da balanca de xango?

    ResponderExcluir
  16. As pessoas filhas de Orixás de mel participam, porém o Orixá não se manifesta.

    ResponderExcluir
  17. Boa Noite!!
    Depois de eu me doutrinar e ter acesso com os orixas eu posso sair dessa religião a qualquer momento ou tenho que fazer algo para desistir como por exemplo colocar alguem em meu lugar??

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Tião
      Como em qualquer outro aspecto da vida, dentro do batuque você não é obrigado a nada, podendo sair a hora que você resolver. Porém toda ação tem uma reação e pode ser que mais adiante você tenha alguma consequência desse ato porque depois que se mexe com a energia do Orixá dificilmente se desligará dela.

      Excluir
  18. Olá, gostaria de saber se é possivel um engano quanto ao interpretar o Orixá de cabeça no jogo de búzios

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim é possível, as vezes por má interpretação da pessoa que está jogando. Por exemplo: Você esta com problema de saúde, Ossanha grita e a pessoa entrega sua cabeça a ele. Também pode acontecer se você é novo na religião pois todos os Orixás tendem a gritar no jogo.

      Excluir
  19. Muito legal suas explicações, obrigado por compartilhar.
    Gostaria de aproveitar e perguntar: de qual lado são suas explicações? Jeje, jeje-ixejá..., desculpe mas não entendo muito...
    você saberia onde posso encontrar rezas do culto Jeje, Nagô-Bobokesha?

    Desde já muito obrigado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá as explicações são de jeje ijexa. Infelizmente não sei onde encontrar

      Excluir
  20. Boa tarde . Gostaria de tirar uma dúvida ou curiosidade .
    Todos os buris são feitos com mel ? Inclusive o de Ogum ou Xangô ?

    ResponderExcluir
  21. Como é feita uma troca de vida dentro do batuque para uma pessoa que não está bem de saúde? Desde já agradeço a atenção.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Fabyan esse tipo de axé deve ser consultado com seu pai ou mãe de santo, pois fundamentos e axés devem ser passados pelos mesmos.

      Excluir
  22. Eu gostaria de saber porque todos os dia sempre tem alguém para me falar uma palavra amarga, sem falar que nada na minha vida da certo.Adoro a minha religião más não me aprontei ainda porque ai contradições sobre meus pais de cabeça,e até acho que tudo em minha volta tranca por esse detalhe.Más trabalho nos 2 lados mesmo assim só recedo elogio porque trabalho dentro da luz da verdade,e sinto que são os pais que me dão força. Já aconteceu de 2 pai de santo que eu ia escolher para fazer ás obrigações quererem misturar religião com o lado emocional, eu não aceitei porque para mim um pai jamais desrespeitará um filho e sinto que minha vida virou teve um atraso porque nada da certo para mim.Adorei ler suas explicações sobre os orixás e até acho que os pais de santos devem sempre dar doutrinas aos filhos de santos passando os conhecimentos para que tenham uma visão mais ampla do que deve ou não ser feito num centro espirita.Existe um ditado que diz que a teoria e a prática devem funcionar juntas para obtermos o exito desejado.Luciana,porque sofro tanto se amo minha religião. Mande a resposta para meu e-mail ssteresinha@gmail.com.Você tem fecebook eu tenho gostaria de ser sua amiga. Tudo de bom e continue passando suas ricas orientações. ok

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Teresinha ja lhe respondi via e-mail.
      Axé

      Excluir
  23. Adorei o seu blog muito bom e esclarecedor, parabéns foi muito bom saber um pouco dessa religião linda abraços vini

    ResponderExcluir