23 de junho de 2014

Robson Pinheiro

Em matéria de espiritualidade, vale muito mais a intenção e o coração do que as palavras bonitas, a roupagem externa ou mesmo a maneira como se pretende buscar a vida espiritual. A forma não é nada se não há força moral, força vital ou o poder iniciático real e verdadeiro. Mais do que espiritismo, Umbanda e espiritualismo precisamos mesmo é de mais espiritualidade, ou seja, de uma visão mais abrangente das coisas. Vejam bem como ocorre com algumas pessoas que usam o método dos passes. Não adianta a pessoa estender as mãos, querer ser magnetizador, se não sabe como funciona o processo e não domina sequer os rudimentos de como manipular as energias que pretende administrar. É preciso estudo constante para aperfeiçoar a forma de servir. Porém, não basta: também é preciso a pessoa ter axé, isto é, a força espiritual outorgada pelo Alto. Por isso vemos muitos filhos-de-santo ou simplesmente pessoas de boa vontade por aí a fundar terreiros de Umbanda ou centros espíritas que, apesar de certo conhecimento adquirido em alguns anos de estudo, não têm força espiritual para solucionar os problemas que naturalmente se apresentam na jornada. Não são dotados daquilo que se convencionou chamar de axé, a força superior para manipular as energias; não são iniciados. Nego-velho não quer dizer da iniciação que se faz nos terreiros, que, em sua grande maioria, não passa de um conjunto de rituais que não transmite a força ou energia necessária para a pessoa converter-se verdadeiramente numa iniciada. Muitos foram submetidos à iniciação num ou noutro culto, mas só possuem aparência de sabedoria; participaram de um monte de ritos que não resolvem o problema de ninguém nem cumprem o objetivo principal, que supostamente seria introduzir o indivíduo no conhecimento de determinadas leis naturais. Nem mesmo a própria pessoa que patrocina a iniciação consegue solucionar seus dramas por meio das práticas recomendadas. Ou seja, quer ajudar o outro, mas não consegue nem ao menos se ajudar. Nego-velho refere-se, na verdade, a uma iniciação superior, realizada no plano espiritual, assim como ao conhecimento das leis da natureza adquirido no passado remoto, em experiências de outras vidas, através de anos e anos de dedicação. Para se ter uma ideia dos diferentes níveis de aprofundamento, façamos uma comparação entre o que significava iniciação em sociedades antigas e o que significa na atualidade. Antigamente iniciar-se nos mistérios da natureza consistia em estudar, praticar, adestrar faculdades, amadurecer e provar não só o conhecimento, mas a capacidade de administrá-lo. Pessoas que passaram por uma verdadeira iniciação, quando encarnadas, trazem um rastro de realizações atrás de si. Não precisam fazer propaganda de seus dons ou de suas pretensas habilidades. Só se pode identificar alguém com tal força e energia superior por meio das obras que realiza; em torno delas, há uma movimentação que revela a construção de algo maior, em benefício da humanidade. Ao contrário dos rituais pueris e sem maior significado de nosso tempo, a iniciação real não está atrelada a   recursos materiais e financeiros nem ao ganho à custa de dores alheias, tampouco se macula com troca de favores e com pagamento por serviços de ordem espiritual. Na presente existência, a maioria dos iniciados verdadeiros jamais passou por rituais exóticos que pretendessem fazer deles pessoas mais poderosas, zeladores de forças da natureza. Refiro-me a uma iniciação constante, progressiva, espiritual, profundamente comprometida com a ética e o crescimento do espírito humano. É algo bem distante das barganhas e fantasias pensadas para festas. Um dia, em longínquas culturas, talvez guardassem algum sentido espiritual, porém hoje não passam de desfiles carnavalescos de que sobressai apenas o cuidado com as coisas da matéria: a profusão de comes e bebes, as roupas vistosas e inusitadas, sem contar a disputa e o jogo sensual ou erótico, elementos que servem somente para mascarar a pobreza espiritual de quem alimenta tais espetáculos de viciação espiritual.

Trecho do livro Corpo Fechado - Robson Pinheiro

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