24 de fevereiro de 2014

Fotos Históricas

Frei Gabriel Malagrida, uma das encarnações do Caboclo das Sete Encruzilhadas no colégio Anchieta em Friburgo

Primeira página do acordo dos inquisidores no processo contra Gabriel Malagrida, que foi executado em um auto de fé no Rossio em Lisboa, em 21 de setembro de 1761

Pintura do Caboclo das Sete Encruzilhadas feita pelo médium Jurandi da Tenda Nossa Senhora da Piedade
Matéria do jornal A Gazeta, de São Gonçalo/RJ, sobre os candidatos do partido governista para as eleições municipais de 1929

Nossa Senhora da Piedade
Casa de Zelio onde foi fundada a Tenda Nossa Senhora da Piedade

Antigo Congal da Tenda Nossa Senhora da Piedade

Atual Congal da Tenda Nossa Senhora da Piedade onde é mantida a mesa de trabalho como nos primórdios da Umbanda em 1908

Trabalho de desobesessão na mesa da Tenda Nossa Senhora da Piedade em 1973
Zelio de Moraes e sua esposa Dona Isabel

Zelio de Moraes, Dona Isabel e Ronaldo Linhares em 1972

Em 1967, após 59 anos de atividade junto a Tenda Nossa Senhora da Piedade, Zelio entregou a direção dos trabalhos a suas filhas Zélia e Zilméia e passou a viver em Boca do Mato, localidade do Município de Cachoeiras do Macacu/RJ ao lado de sua esposa Dona Isabel. Nesse recanto, continuou a a atender os necessitados, na Cabana de Pai Antonio
Pai Antonio incorporado em Zelio na Cabana de Pai Antonio

Antigo Congal da Cabana de Pai Antonio, onde atualmente funciona a Tenda Nossa Senhora da Piedade

Sete Flechas
Caboclo Sete Flechas incorporado em Zélia de Moraes em 1990 na Tenda Nossa Senhora da Piedade

As filhas de Zelio deram continuidade a Tenda Nossa Senhora da Piedade, porém após o falecimento do marido de Dona Zélia, a mesma se mudou para a Boca do Mato, continuando os trabalhos na Cabana de Pai Antonio, enquanto Dona Zilmeia continuou dirigindo a Tenda Nossa Senhora da Piedade. Essa foto é do Congal da Cabana de Pai Antonio em 1999

Zilméia de Moraes firmando o ponto do Caboclo das Sete Encruzilhadas

Detalhe do Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda em 1941 no Rio de Janeiro

Segundo Congresso Nacional de Umbanda em 1961 no Rio de Janeiro

Jose Manoel Alves, autor do Hino da Umbanda em foto registrada no Primado de Umbanda

Primado de Umbanda em 1965 no Maracãnazinho

21 de fevereiro de 2014

Sete

Quem criou o Hino da Umbanda?

Congresso Nacional de Umbanda

A música do Hino foi composta por Dalmo da Trindade Reis que era Maestro Tenente do Conjunto Musical da Policia Militar do Rio de Janeiro. Já a letra foi escrita por José Manoel Alves, nascido em 05 de Agosto de 1907 em Portugal. Com pouco mais de 20 anos, em 1929, veio para o Brasil, instalando-se em São Paulo, onde ingressou na Banda da Força Pública, ocupando vários postos e aposentando- se como capitão. Em paralelo a esta função exerceu a carreira de compositor de Músicas Populares compondo dezenas de músicas e hinos que foram gravadas por famosos intérpretes da época. Inclusive compôs o hino para o Primado de Umbanda de São Paulo. No entanto, era cego e no início da década de 60, em busca de sua cura foi procurar a ajuda do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Embora não tenha conseguido sua cura porque, segundo consta, sua cegueira era de origem kármica, José Manuel ficou apaixonado pela religião e, ainda em 1960, fez o Hino da Umbanda para mostrar que esta Luz Divina que vem do Reino de Oxalá, não é para ser vista com os olhos físicos, mas sim com olhos do espírito, no encontro da mente com o coração.  Apresentou a letra ao Caboclo, o qual tanto a apreciou, que resolveu nomeá-la como Hino da Umbanda. Em 28 de junho de 1961, durante o Segundo Congresso Brasileiro de Umbanda presidido por Henrique Landi Júnior, onde compareceram cerca de quatro mil médiuns uniformizados, além de grande público assistente, o Hino da Umbanda foi oficialmente adotado em todo o Brasil como o Hino Oficial da Umbanda.

20 de fevereiro de 2014

Pantera Negra

Conta uma lenda que Pantera Negra veio da África, da região do antigo Dahomé, onde era celebrado como protetor da Casa Real. O primeiro nobre desta linhagem, contam os mais velhos, foi um homem-fera, pois tinha pai pantera e mãe humana. É uma entidade muito temida, pois é profundamente justo e não perdoa os fracos de caráter. Poucos médiuns conseguem suportar a incorporação dele ou de outros espíritos da família das panteras. É necessária muita preparação, firmeza de pensamento e moralidade. Seu Pantera é celebrado por uns como Caboclo e por outros como Exu. Contam os mais velhos que Pantera Negra era chefe de uma Linha de Caboclos que atuam na Esquerda. Estes caboclos seriam espíritos oriundos de tribos brasileiras muito isoladas e desconhecidas, ou de tribos das ilhas do Caribe, Venezuela, México e mesmo dos Estados Unidos. Índios fortíssimos, arredios e alguns até brutos. Em algumas terreiras, Pantera Negra se manifesta com o nome de Pantera Negro Africano. A maneira de atuar destes entes é muito parecida com a dos Exus, sendo confundidos com frequência. Alguns adeptos e médiuns que trabalham com estas entidades, acreditam que é o mesmo Pantera. Há quem diga que Seu Pantera atua na linha de Caboclo e de Exu. mesmo mas atua como Caboclo na linha dita branca e como Exu na linha de Exu. O médium que recebe ele como caboclo, dificilmente o recebe como Exu pois são energias distintas, como Caboclo apresenta energia mais sutil e Exu mais densa, porém ambas são muito poderosas. Caboclo ou Exu, Pantera ou Onça, brasileiro ou estrangeiro, ele é mais um mistério da nossa Umbanda.


Procure por todas bandas
Por todas vais encontrar
Seu nome é Pantera Negra
Vai chegar pra trabalhar

Já bateu a meia noite
Vou fazer minha oração
Vai chegar Pantera Negra
Com toda sua legião

13 de fevereiro de 2014

Em uma época onde os deuses viviam na terra, existiu duas jovens irmãs: Oxum e Iansã. Oxum era deusa do ouro e da prata e tinha poderes sobre o ocultismo, Iansã por sua vez era deusa dos raios, tendo assim poderes sobre eles. Oxum carregava consigo o espelho que mostrava toda verdade oculta. Um belo dia Iansã muito curiosa, pegou o espelho e olhou, viu que era mais bonita que Oxum. Toda aldeia ficou sabendo disso e Oxum ficou muito brava. Resolveu dar uma lição em sua irmã, colocou em seu quarto outro espelho, esse mostrava o lado ruim das coisas. Iansã percebendo a troca foi novamente olhar, ficou chocada com o que viu, em vez de ver sua imagem viu um monstro horrível. Entrou numa tristeza profunda e acabou morrendo. Os deuses mais velhos descobriram a vingança de Oxum e decidiram castigá-la. Oxum carregaria Iansã em seu corpo eternamente, seis meses seria Oxum com todas suas características e os outros seis meses seria Iansã. Oxum Opará tem em uma das mãos o espelho e na outra a espada que representa Iansã, dizem que ela é uma deusa guerreira e anda ao lado de Ogum, o deus do ferro e da estrada.
Há muito tempo atrás uma em uma tribo viviam três irmãs: Iemanjá, Oxum e Iansã, que, embora pobres, eram felizes. Iemanjá era a mais velha, Iansã era a menor e teve os cuidados de Oxum, enquanto elas pescavam no rio. Muito grande foi o amor entre as irmãs. Um dia a tribo foi invadida por tropas inimigas. Oxum não podia ouvir os gritos de Iansã, nem ouvir o canto de Iemanjá, pois estava submersa no rio. Assim, o inimigo tomou Iansã em um cativeiro e pediaram o resgate de Iansã. Oxum lentamente começou a manter as moedas de cobre até que ela tivesse dinheiro suficiente para resgatar sua irmã. O chefe tribal, que estava loucamente apaixonado por Oxum e sabia da pobreza dela, dobrou o preço da redenção, enquanto as negociações eram feitas. Oxum se ajoelhou, chorou e implorou, mas o patrão pediu-lhe a virgindade em troca da liberdade da irmã. Pelo amor que tinha por Iansã, Oxum concordou. Quando Iansã voltou para casa, Iemanjá lhe contou o sacrifício que Oxum fizera, e sua irmã em reconhecimento de seu gesto generoso, passa a usar a cabeça e os braços adornados por peças de cobre. Enquanto Iansã estava em cativeiro, Olofin distribuiu bens entre as pessoas de sua tribo: o canto para Iemanjá, que se tornou senhora absoluta dos mares, para Oxum o rio, para Ogum metais e assim por diante. Mas não como Iansã não estava presente, acabou não ganhando nada. Oxum implorou para que seu pai não omitisse sua representação terrena. Olofin ficou pensativo, quando percebeu a justeza do pedido e notou que havia apenas um lugar sem dono: o cemitério. Iansã aceitou de bom grado, e assim tornou-se dona e senhora do cemitério.
Oxum queria saber o segredo do jogo de búzios que pertencia a Bará e este não queria lhe revelar. Ela então procura na floresta as feiticeiras Iyá Mi. As feiticeiras perguntam a Oxum o que faz ali e ela lhes pede como enganar a Bará e conseguir o segredo do jogo de búzios. As feiticeiras a muito querendo pregar uma peça a Bará,  ensinaram toda a sorte de magias a Oxum, mas exigiram que ela lhes fizesse uma oferenda a cada feitiço realizado. Oxum concordou e foi procurar Bará. Ao chegar perto do seu reino, Bará desconfiado perguntou-lhe o que queria por ali, que ela deveria embora e que ele não a ensinaria nada. Ela então o desafia a descobrir o que tem entre os dedos. Bará se abaixa para ver melhor e ela sopra sobre seus olhos um pó mágico que ao cair nos seus olhos o cega e arde muito. Bará gritava de dor e dizia: - Eu não enxergo nada, cadê meus búzios? Oxum fingindo preocupação, respondia: - Búzios? Quantos são eles? - Dezesseis, respondeu Bará, esfregando os olhos - Ah! Achei um, é grande! - É Okanran, me dê ele. - Achei outro, é menorzinho! - É Eta-Ogundá, passa pra cá... E assim foi até que ela soube todos os segredos do jogo de búzios. Ifá o Orixá da adivinhação, pela coragem e inteligência da Oxum, resolveu-lhe dar também o poder do jogo e dividi-lo com Bará.


Numa de suas inúmeras caçadas, sem que tivesse consultado Ifá, Oxóssi encontrou uma cobra no mato: Oxumaré. Ela lhe diz que não pode ser morta por ele, pois não é um bicho de penas, ele pouco se importou com o aviso, e mata-a com a lança, cortando-a em diversos pedaços e levando para casa para ele mesmo preparar um assado, com o qual se refastelou. No dia seguinte, Oxum, sua esposa, prevendo muitas catástrofes, por causa da quebra de tantos tabus, encontra Oxóssi, deitado no chão morto e rastros de cobra que iam em direção a floresta. Oxum chorou tanto e tão alto que Ifá, condoído pela sua dor, fez Odé, o caçador, renascer sob a forma divina de Oxóssi.
Ogum foi fazer uma caça e quando estava com um búfalo na mira de sua arma para derruba-lo, a pele do animal se abre e ele vê Oyá. Linda, ricamente vestida e cheia de ornamentos que valorizavam a sua beleza e sensualidade. Ela pega a pele do búfalo, esconde-a em um formigueiro e sai dirigindo-se para a cidade. Ogum a seguiu e completamente dominado pela sua beleza lhe propõe casamento, que não foi aceito por Oyá. Ogum, em seguida, retorna ao local onde a viu pela primeira vez e pegando a pele de búfalo a guarda para si mesmo, retornando para a cidade. Ele estava determinado a ter a seu lado Oyá e não se daria por vencido. Quando Oyá descobriu o roubo da pele volta à cidade e encontra Ogum esperando por ela, ela o acusa e exige o que é seu. Ogum finge não entender nada e Oyá sente que tem que se render e aceitar a proposta, mas impõe condições: Ninguém nunca poderia saber o seu segredo, ele nunca deveria revelar a ninguém. Ogum aceitou os termos e casaram-se, porém Ogum não estava sozinho, ele tinha outras mulheres que ficaram com ciúmes da bela Oyá e decidiram tomar uma atitude. Elas iriam embebedar Ogum com vinho de palma para dizer-lhes o segredo de Oyá. Então ele contou ser dela um chifre de animal, a pele e os cascos. Oyá fingiu que não era seu, mas quando deixada sozinha, correu até o local e vestindo seus pertences, a força do animal e a raiva vieram a tona e ela atacou e matou as outras mulheres. Desapontada com a traição de Ogum e sua falta de confiança, chorando de raiva por ele ter revelado seu segredo e decepcionada pretendia voltar para a floresta, mas seus filhos a chamavam de volta. Ela então pegou seus chifres e deu-lhes, dizendo-lhes que se eles se precisassem da ajuda dela, era somente bater uns nos outros e ela iria surgir a partir do vento para defendê-los. 
Bará sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os Orixás. Olorun, quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe. Por isso, nas festas que se realizavam no orun, ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a todos. Sempre foi assim, até que um dia os Orixás acharam que o som dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação. Então, eles pediram a Bará que parasse com aquela atividade barulhenta, para que a paz voltasse a reinar. Assim foi feito, e Bará nunca mais tocou seus tambores, respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os Orixás começaram a sentir falta da alegria que a música trazia. As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores. Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Bará que voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem vida. Bará negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a primeira pessoa que encontrasse. Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Bará confiou-lhe a missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos Orixás. E, daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans.
Oxumaré, filho de Nanã e Orixalá, recebeu de Olorun uma missão muito especial e importante para dar continuidade ao processo de criação e renovação da natureza. Sua tarefa consistia em carregar, dentro de suas cabaças, toda água da terra de volta para o céu. Era uma tarefa árdua e interminável, pois, nem bem ele enchia as nuvens, a água já começava a escorrer, molhando tudo novamente. Ele não tinha tempo a perder, mas, numa dessas viagens, parou para olhar a terra e viu um imenso lugar, onde tudo era extraído da lama. Estava faltando alguma coisa para dar mais alegria ao lugar. O próprio Oxumaré já tinha colocado em movimento todos os seres criados, como Olorun havia ordenado, mas ainda não bastava, tudo parecia muito igual e sem vibração. Ele resolveu, então, pedir a Olorun que o ajudasse a encontrar uma maneira de trazer mais felicidade para a terra, e Olorun concedeu a ele a realização desse desejo. Quando estava carregando água, sem querer, deixou cair algumas gotas pelo caminho. De repente, formou-se um arco colorido, de uma beleza incrível. Aquele arco mostrava as cores do universo, e, através dele e de suas infinitas combinações, Oxumaré poderia colorir toda a terra com diversos matizes, tornando-a mais alegre e vibrante. A partir de então, formou-se uma aliança entre Olorun e os seres criados, que sempre poderia ser vista quando as águas do céu encontrassem a luz do sol.
Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Xapanã não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos. Indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter. O poderoso Orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença. De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras. As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte. Um Babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Xapanã havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o Babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade.
Nanã esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz! Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos. Iemanjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho. Com seu grande instinto maternal, Iemanjá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas. Xapanã cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas. Iansã, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Xapanã, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam. Quando a poeira assentou, Iansã pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como Orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido.
Iansã vivia feliz com Ogum pois os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares. Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Iansã gostava muito de vê-lo trabalhar em seu oficio de ferreiro, tentando aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Ela pedia insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.
Um dia, Ogum a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu exército estava usando esse mesmo tipo de arma. Porém Ogum não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada. Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Iansã adorava a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia. Começou a sentir-se rejeitada por ele. Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogum, pois precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso com sua aparência. Era impossível não notar sua presença. Ogum, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do serviço. Xangô também notou a presença de Iansã, sentindo uma grande atração por ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como Ogum. Iansã estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo com ele, mas não queria magoar Ogum, a quem respeitava muito. Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando sempre juntos por toda a terra. Seria uma união perfeita. Quando Ogum terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira não podia ficar cativa para sempre e partiu atrás deles para vingar sua desonra! Iansã estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre como grande Orixá da guerra. Ogum estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Iansã, em defesa própria, também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo e Ogum em sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses Orixás, assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos.

Em tempos muito antigos,  as terras e as águas estavam no mesmo nível, não havendo limites definidos. Logun, que transitava livremente por esses dois domínios, sempre tropeçava quando passava de um reinado para o outro. Esses acidentes deixavam Logun muito irritado. Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava muito escorregadia. Voltou, então, para o fundo do rio, onde começou a cavar freneticamente, com a intenção de suavizar a passagem da água para a terra. Com essa escavação, machucou suas mãos, pés e cabeça, mas conseguiu fazer uma passagem, que tornou mais fácil sua transição. Logun criou, assim, as margens dos rios e córregos, onde passou a dominar. Por esse motivo, suas oferendas são bem aceitas nesse local.

Odé e Oxum constantemente discutiam sobre os limites de seus respectivos reinados, que eram muito próximos. Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta. Oxum argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação.
Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses reinados, para tentar apaziguá-los. A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras. Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro lugar. Oxum, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com a companhia de seus filhos peixes para confortá-la. Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada. Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação.
Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxum, propondo a ela uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira tentativa pois queria que Odé se desculpasse reconhecendo suas qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun. Dessa união nasceu um novo Orixá, um príncipe, Logun-Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais. Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a paz e a fertilidade.
Na cidade de Ifé realizavam-se festividades e rituais por ocasião das colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas conhecidas: as Iyá Mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar aquela aldeia. A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a cidade. Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro. Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era tarde demais para isso. Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador era Odé. Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação a ele e consultando um Babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu filho corria grande perigo. Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo venerado por esse povo.
Oxalufan devia ir na terra de Kùsó visitar seu filho Xangô. Antes, porém, consultou Ifá para saber se tudo correria bem durante a viagem e foi aconselhado a não negar nada a ninguém o que fosse pedido e mais ainda que levasse consigo sabão da costa, obí e três roupas brancas. Seguindo seu caminho, encontrou por três vezes Exu que lhe pediu sucessivamente para ajudá-lo a carregar na cabeça uma barriga de azeite de dendê, uma carga de carvão e outra de óleo de amêndoas. As três vezes Exu derramou o conteúdo sobre Oxalufan. Mas este sem se queixar, lavou-se e trocou as três mudas de roupas e continuou a viagem. Oxalufan havia dado de presente a Xangô um cavalo branco, o qual havia desaparecido do reinado fazia bastante tempo. Os escravos de Xangô andavam por toda parte para encontrá-lo e eis que Oxalufan passando por um mineral, apanhou algumas espigas de milho e ao mesmo tempo deparou-se com o cavalo perdido de Xangô. O cavalo também reconheceu Oxalufan e lhe acompanhou. Nesse instante, chegaram os escravos de Xangô, gritando: Olé Esim Oba, que quer dizer "ladrão do cavalo do rei". Não reconhecendo Oxalufan, deram-lhe vários golpes e em seguida jogaram-no na prisão onde permaneceu por sete anos. Enquanto isso, no reino de Xangô tudo corria mal. Xangô preocupado consultou um Babalawo que lhe revelou: "Algum inocente paga injustamente em tuas prisões". Xangô, então, ordenou que os prisioneiros comparecessem diante dele e reconheceu seu pai. Enviou então os escravos vestidos de branco até uma fonte vizinha para lavar Oxalufan, sem falar uma palavra, em sinal de tristeza. Depois, Xangô, em sinal de humildade, carregou Oxalufan nas costas de volta até o Palácio de Oxaguian. Oxaguian, muito alegre com o regresso de Oxalufan, ofereceu um grande banquete. Esse mito mostra todo o caminho seguido no ritual Águas de Oxalá.