9 de outubro de 2014

Para refletir


Maria, uma mulher feita no santo, casada, com 3 filhos com idade média de 13 anos mora em uma casa boa, sem luxo mas com muita dignidade. Afastada do santo há mais de 8 anos, atualmente não frequenta nenhuma casa. Não tem nenhum dos seus assentos que deixou na última casa de santo. Sábado, por volta das 23:00hs, Maria recebe uma ligação dizendo que seu filho mais velho se acidentou e está em um hospital na emergência. Maria corre para lá desesperada e depois de uma longa conversa com os médicos, fica confiante na sua recuperação. Orientada por eles, Maria permanece ao lado do filho após a cirurgia. Enquanto o menino fica em observação, Maria vai até a lancheria comer algo quando percebe uma correria para a sala de observação. Médicos desesperados, pedidos de equipamentos, enfermeiros sem dar explicações. Ninguém foi autorizado a entrar na sala.
Outros parentes fora da sala preocupavam-se com o que estava acontecendo lá. Alguma pessoa lá dentro estava muito grave e corria risco de vida.
Maria vai lá para fora e diz:
-Meu filho não pode morrer, meu Pai me ajude, por favor!
Mas o desespero de ver um filho à beira da morte, faz você dizer coisas que não deveriam ser ditas, e Maria diz:
-Não sei por que entrei para o santo. Em todos os momentos que precisei nunca tive ajuda de vocês. Por isso que saí e não pretendo voltar.
Nesse momento uma voz rouca, mas bem clara responde:
-Minha filha, estou aqui. Por que a reclamação?
Maria congelada não sabia o que dizer. Achava que fosse coisa da cabeça dela por conta do nervosismo da situação. Mesmo assim, não acreditando, Maria diz:
-Só faltava isso. Meu filho internado morrendo e eu ficando maluca.
E a voz diz:
-Não minha filha. Você não está ficando maluca,  sou eu mesmo, seu pai que estou respondendo a sua súplica, como sempre respondi.
Maria, mesmo não acreditando de fato, resolve dar assunto àquela voz, e diz:
-Já que está aqui me respondendo vou dizer tudo que sinto. Fiz o santo sem condição, gastei o que podia e o que não podia. Muitas vezes, não tinha muito que comer. O pai de santo nada fazia para me ajudar. Quando ele resolver sentar para jogar, você meu Pai diz no jogo que tudo vai melhorar. Isso é reposta? Para quem estava naquela situação...
E voz tenta falar:
-Mas minha filha
E Maria interrompe:
-Espere aí! Não pediu? Então vai ouvir. Eu estava aqui quieta.
E Maria continuou:
-Meu marido ficou desempregado, ficamos sem casa, morando de favor. Nada dava certo. Saí daquela casa. Fiquei longe um tempo. O pai de santo me cobrava a mensalidade, mas eu não tinha. Tudo atrasado: aluguel, cartão, escola. Tive que colocar meus filhos em escola pública. Sem contar que meu irmão ficou mal de saúde e eu nem tive como ajudar. Procurei outra casa. A mãe de santo jogou e me disse que eu tinha que fazer um ebó para tudo melhorar. Arrumei dinheiro emprestado para comprar as coisas, fiz tudo que foi pedido e nada mudou. Nada! Então para que estou na religião? Para gastar com o santo e nada melhorar? Não quero mais. Meu filho está aqui entre a vida e a morte e eu aqui ouvindo uma voz do além, quem nem sei quem é. Tô fora.
A voz pacientemente diz:
-Minha filha me ouça. Quando você estava para nascer, Iemanjá me perguntou se eu queria uma filha. Na hora disse que sim e não me arrependo dessa decisão. Você passou dificuldades na vida por que assim estava escrito. Mas eu não deixei você e seus filhos morrerem de fome. Sempre coloquei alguma coisa na sua mesa.Quando você tinha 15 anos, você foi atacada por uma pessoa que tinha nela um egun encostado. Pedi a Exú que fizesse algo rápido e ele colocou outro rapaz para te defender. Aquele rapaz de bermuda comprida e sem camisa era seu Exú que foi te salvar e logo desapareceu.
Maria, pensativa disse:
- Eu procurei depois para agradecer, mas ele não estava mais lá.
E a voz continuou:
-Quando você fez o santo, o zelador não falou para você, mas ele viu que se não fosse feito hoje você estaria seriamente doente. Mas Omulu depois da feitura resolveu te ajudar e te curar de uma vez. A casa não era boa, mas naquele instante era o que você precisava.Sobre o ebó ajudou bastante. Foi por isso que eu disse no seu jogo que tudo ia melhorar. E melhorou.Quando faltou dinheiro, não foi culpa minha. Você gastou e comprou muitas coisas sem necessidade e muitas vezes esqueceu-se de mim, do seu Exú, de Omulu que curou você. Você foi a várias festas em dias que deveria estar no barracão. Tinha Bori de outros irmãos. Tinha feitura da sua irmã de Oyá. Você disse ao pai de santo que não estava bem. E foi para a Festa. O ebó que você fez, que pedi no jogo para ser feito, tinha o objetivo de afastar umas coisas ruins que estavam ao seu lado atrasando sua vida enquanto eu estava levando a culpa por isso. No dia que você completava 10 anos de santo feito, você estava de preto no casamento do seu sobrinho e nem lembrou a data. Eu não pedi nada a você, mas pelo menos um branco pelo dia você deveria ter colocado.Quantas vezes você andou com o meu fio de conta escondido na sua bolsa? Você tem vergonha de mim? Tem vergonha da sua religião? O seu Exú veio me dizer que você estava correndo risco de acidente. Você Lembra?
E Maria responde:
-Lembro sim. Me machuquei muito naquele dia.
E a voz continua:
-Sim, eu sei disso. Mas o que você não sabe é que pedi a Exú para não deixar nada de muito grave acontecer com você. E ele fez. A pessoa ao seu lado faleceu. A pessoa que estava na frente, até hoje precisa de médico e vai continuar por um bom tempo. Mas você, logo se recuperou. Pedi a Ogum em seu nome que não deixasse o carro cair para o lado do muro que separa a estrada do barranco. E ele me atendeu. Ali naquele ponto mora um Egun revoltado e antigo, por isso tem acidentes e mortes. O seu primo que dirigia o carro estava bêbado e egun usou ele para atingir vocês. Quer que eu fale sobre seu irmão? Você não foi ajudar, mas pediu tanto por ele, chorou tanto, que resolvi pedir a Xangô. Xangô ajudou e ele hoje está muito bem. Até ganhou o processo que se arrastava lá nos homens de toga. Não é verdade?
Maria sem entender o que se passava, com os olhos cheios de lágrimas respondeu que sim.
E a voz diz:
- Minha filha não acuse seu pai pelos seus erros. Muito ao contrário, enquanto você está errando, eu estou aqui tentando acertar com você. Seu Exú trabalha muito para te ajudar e nunca ouviu de você uma palavra de agradecimento. Você dá presentes para outros exus que dizem que fazem por você e não fazem,  enquanto o seu nem uma vela teve acessa. Não diga jamais que somos culpados. Só falta eu te dizer uma coisa:
A correria lá dentro não é por seu filho. O motivo é o menino ao lado que vai falecer. O seu está bem, nós cuidamos dele e o médico já está vindo te chamar para levar ele para casa.
Que Oxalá te abençoe!

27 de junho de 2014

No inicio dos tempos os pântanos cobriam quase toda a terra. Faziam parte do reino de Nanã e ela tomava conta de tudo como boa soberana que era. Quando todos os reinos foram divididos por Olorun e entregues aos Orixás, uns passaram a adentrar nos domínios dos outros e muitas discórdias passaram a ocorrer. Ogum precisava chegar do outro lado de um grande pântano, lá havia uma séria confusão ocorrendo e sua presença era solicitada com urgência. Resolveu então atravessar o lodaçal para não perder tempo. Ao começar a travessia que seria longa e penosa ouviu atrás de si uma voz autoritária: - Volte já para o seu caminho rapaz! Era Nanã com sua majestosa figura matriarcal que não admitia contrariedades - Para passar por aqui tem que pedir licença! - Como pedir licença? Sou um guerreiro, preciso chegar ao outro lado urgente. Há um povo inteiro que precisa de mim. - Não me interessa o que você é e sua urgência não me diz respeito. Ou pede licença ou não passa. Aprenda a ter consciência do que é respeito ao alheio. Ogum riu com escárnio: - O que uma velha pode fazer contra alguém jovem e forte como eu? Irei passar e nada me impedirá! Nanã imediatamente deu ordem para que a lama tragasse Ogum para impedir seu avanço. O barro agitou-se e de repente começou a se transformar em grande redemoinho de água e lama. Ogum teve muita dificuldade para se livrar da força imensa que o sugava. Todos seus músculos retesavam-se com a violência do embate. Foram longos minutos de uma luta sufocante. Conseguiu sair, no entanto, não conseguiu avançar e sim voltar para a margem. De lá gritou: - Velha feiticeira, você é forte não nego, porém também tenho poderes. Encherei esse barro que chamas de reino com metais pontiagudos e nem você conseguirá atravessa-lo sem que suas carnes sejam totalmente dilaceradas. E assim fez. O enorme pântano transformou-se em uma floresta de facas e espadas que não permitiriam a passagem de mais ninguém. Desse dia em diante Nanã aboliu de suas terras o uso de metais de qualquer espécie. 
Após Olofin determinar que os Orixás fossem cultuados pelos viventes, eles saíram pelo mundo à procura de seus filhos para firmar a aproximação do mundo dos encantados com o das pessoas. Irokô era muito cultuado e trabalhava muito perto de onde havia uma feira cheia de movimento. Irokô soprou e seu hálito em forma de vento foi cair sobre a cabeça de uma moça que vendia na feira que começou a rodar e foi cair nos pés de Irokô, nascendo assim a primeira locosi, que dizer que Irokô chega no axé para dançar e ficar. Todos os orixás correram para os pés de Irokô trazendo suas comidas prediletas: Xangô levou amalá, Ogum levou inhame assado, Odé levou milho amarelo, Omulu levou pipoca e feijão preto, Ossanhe levou farofa de mel de abelhas, Oxumaré levou farofa de feijão, Oxalufã levou milho branco, Oxaguiã levou bolos de inhame cozido, Orumilá levou ossos, Bará chegou correndo e levou cachaça e ajoelhando-se nos pés de Irokô jogou 3 pingos no chão,cheirou 3 vezes e bebeu um pouco. Neste momento Irokô se transformou-se em árvore e as comidas ficaram aos seus pés.


Olodumaré destinou a Iemanjá os cuidados da casa de Oxalá, assim como a criação dos filhos e de todos os afazeres domésticos. Iemanjá trabalhava e reclamava de sua condição de menos favorecida, afinal, todos os outros deuses recebiam oferendas e homenagens e ela, vivia como escrava. Durante muito tempo Iemanjá reclamou dessa condição e tanto falou nos ouvidos de Oxalá, que este enlouqueceu. O ori de Oxalá não suportou os reclamos de Iemanjá até que ele ficou enfermo. Iemanjá deu-se conta do mal que fizera ao marido e, em poucos dias, utilizando-se de banha vegetal, água fresca, obi, pombos brancos e frutas deliciosas e doces, curou Oxalá que agradecido foi a Olodumaré pedir para que deixasse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori e demais ritos à cabeça.

23 de junho de 2014

Robson Pinheiro

Em matéria de espiritualidade, vale muito mais a intenção e o coração do que as palavras bonitas, a roupagem externa ou mesmo a maneira como se pretende buscar a vida espiritual. A forma não é nada se não há força moral, força vital ou o poder iniciático real e verdadeiro. Mais do que espiritismo, Umbanda e espiritualismo precisamos mesmo é de mais espiritualidade, ou seja, de uma visão mais abrangente das coisas. Vejam bem como ocorre com algumas pessoas que usam o método dos passes. Não adianta a pessoa estender as mãos, querer ser magnetizador, se não sabe como funciona o processo e não domina sequer os rudimentos de como manipular as energias que pretende administrar. É preciso estudo constante para aperfeiçoar a forma de servir. Porém, não basta: também é preciso a pessoa ter axé, isto é, a força espiritual outorgada pelo Alto. Por isso vemos muitos filhos-de-santo ou simplesmente pessoas de boa vontade por aí a fundar terreiros de Umbanda ou centros espíritas que, apesar de certo conhecimento adquirido em alguns anos de estudo, não têm força espiritual para solucionar os problemas que naturalmente se apresentam na jornada. Não são dotados daquilo que se convencionou chamar de axé, a força superior para manipular as energias; não são iniciados. Nego-velho não quer dizer da iniciação que se faz nos terreiros, que, em sua grande maioria, não passa de um conjunto de rituais que não transmite a força ou energia necessária para a pessoa converter-se verdadeiramente numa iniciada. Muitos foram submetidos à iniciação num ou noutro culto, mas só possuem aparência de sabedoria; participaram de um monte de ritos que não resolvem o problema de ninguém nem cumprem o objetivo principal, que supostamente seria introduzir o indivíduo no conhecimento de determinadas leis naturais. Nem mesmo a própria pessoa que patrocina a iniciação consegue solucionar seus dramas por meio das práticas recomendadas. Ou seja, quer ajudar o outro, mas não consegue nem ao menos se ajudar. Nego-velho refere-se, na verdade, a uma iniciação superior, realizada no plano espiritual, assim como ao conhecimento das leis da natureza adquirido no passado remoto, em experiências de outras vidas, através de anos e anos de dedicação. Para se ter uma ideia dos diferentes níveis de aprofundamento, façamos uma comparação entre o que significava iniciação em sociedades antigas e o que significa na atualidade. Antigamente iniciar-se nos mistérios da natureza consistia em estudar, praticar, adestrar faculdades, amadurecer e provar não só o conhecimento, mas a capacidade de administrá-lo. Pessoas que passaram por uma verdadeira iniciação, quando encarnadas, trazem um rastro de realizações atrás de si. Não precisam fazer propaganda de seus dons ou de suas pretensas habilidades. Só se pode identificar alguém com tal força e energia superior por meio das obras que realiza; em torno delas, há uma movimentação que revela a construção de algo maior, em benefício da humanidade. Ao contrário dos rituais pueris e sem maior significado de nosso tempo, a iniciação real não está atrelada a   recursos materiais e financeiros nem ao ganho à custa de dores alheias, tampouco se macula com troca de favores e com pagamento por serviços de ordem espiritual. Na presente existência, a maioria dos iniciados verdadeiros jamais passou por rituais exóticos que pretendessem fazer deles pessoas mais poderosas, zeladores de forças da natureza. Refiro-me a uma iniciação constante, progressiva, espiritual, profundamente comprometida com a ética e o crescimento do espírito humano. É algo bem distante das barganhas e fantasias pensadas para festas. Um dia, em longínquas culturas, talvez guardassem algum sentido espiritual, porém hoje não passam de desfiles carnavalescos de que sobressai apenas o cuidado com as coisas da matéria: a profusão de comes e bebes, as roupas vistosas e inusitadas, sem contar a disputa e o jogo sensual ou erótico, elementos que servem somente para mascarar a pobreza espiritual de quem alimenta tais espetáculos de viciação espiritual.

Trecho do livro Corpo Fechado - Robson Pinheiro

15 de maio de 2014

Não somos descendentes de escravos, como dizem os livros escolares. Somos descendentes de civilizações africanas, de reinados fortes e poderosos. Somos descendentes de reis, rainhas, príncipes e princesas. Somos parentes de homens e mulheres que desenvolveram a escrita, a astrologia, às ciências e as pirâmides. Somos fruto de um povo que desenvolveu as técnicas agrícolas e que domina a medicina alternativa. Somos fruto de um povo que conhece as folhas e como despertar o poder delas, nosso povo sabe estar no Aiyê sem perder a essência do Orum.
Ricardo de Andrade

19 de março de 2014

Okê, rei da cidade de Otã, tinha uma filha. Ela nascera com 4 seios e era chamada de Otim. O rei Okê adorava sua filha e não permitia que ninguém soubesse de sua deformação. Este era o segredo de Okê, este era o segredo de Otim. Quando Otim cresceu, o rei aconselho-a a nunca se casar, pois um marido, por mais que a amasse, um dia se aborreceria com ela e revelaria ao mundo seu vergonhoso segredo. Otim ficou muito triste, mas acatou o conselho do pai. Por muitos anos, Otim viveu em Igbajô, uma cidade vizinha, onde trabalhava no mercado. Um dia, um caçador chegou ao mercado, e ficou tão impressionado com a beleza de Otim, que insistiu em casar-se com ela. Otim recusou seu pedido por diversas vezes, mas, diante da insistência do caçador, concordou, impondo uma condição: o caçador nunca deveria mencionar seus quatro seios a ninguém. O caçador concordou, e impôs também sua condição: Otim jamais deveria por mel de abelhas na comida dele, porque isso era seu tabu. Por muitos anos, Otim viveu feliz com o marido. Mas como era a esposa favorita, as outras esposas sentiram-se muito enciumadas. Um dia, reuniram-se e tramaram contra Otim. Era o dia de Otim cozinhar para o marido; ela preparava um prato de milho amarelo cozido, enfeitado com fatias de coco, o predileto do caçador. Quando Otim deixou a cozinha por alguns instantes, as outras sorrateiramente puseram mel na comida. Quando o caçador chegou em casa e sentou-se para comer, percebeu imediatamente o sabor do ingrediente proibido. Furioso, bateu em Otim e lhe disse as coisas mais cruéis, revelando seu segredo. A novidade espalhou-se pela cidade como fogo. Otim, a mulher de quatro seios, era ridicularizada por todos. Otim fugiu de casa e deixou a cidade do marido. Voltou para sua cidade, Otã, e refugiou-se no palácio do pai. O velho rei a confortou, mas ele sabia que a noticia chegaria também a sua cidade. Em desespero, Otim fugiu para a floresta. Ao correr, tropeçou e caiu. Nesse momento, Otim transformou-se num rio, e o rio correu para o mar. Seu pai, que a seguia, viu que havia perdido a filha. Lá ia o rio fugindo para o mar. Querendo impedir o Rio de continuar sua fuga, desesperado, atirou-se ao chão, e, ali onde caiu, transformou-se em uma montanha, impedindo o caminho do rio Otim para o mar. Mas Otim contornou a montanha e seguiu seu curso. Okê, a montanha, e Otim, o rio, são cultuados até hoje em Otã. Odé, o caçador, nunca se esqueceu de sua mulher.
Iemanjá fora alertada por um Babalaô para não deixar Odé ir para o mato pois poderia se perder e ter consequências desastrosas. Iemanjá alertou Odé que teimoso não deu ouvidos. Como avisara o Babalaô, Odé se perdeu e foi recolhido por Ossanhe, que se afeiçoou a Odé, vestindo-o de penas e deu-lhe arco e flecha e ensinou-lhe manejo. Iemanjá quando sentiu falta do seu filho começou a procurar com a colaboração de Ogum. Odé foi encontrado, mas não queria retornar, e quando voltou, continuou a usar arco e flecha.

Bará, sabedor de que uma rainha fora abandonada pelo esposo, procurou-a, entregou-lhe uma faca e ordenou-lhe que cortasse alguns fios da barba do rei, dizendo: - Traga- me esses fios de barba que lhe farei um amuleto que trará seu marido de volta. Mas Bará também procurou o filho do rei, e disse ao príncipe que o rei iria partir para uma guerra e pedia seu comparecimento à noite, ao palácio acompanhado dos seus guerreiros. Finalmente, Bará foi ao rei e disse: - A rainha, magoada com sua frieza, deseja matá-lo para se vingar. Cuidado esta noite! E a noite veio. O rei deitou-se, fingiu dormir e viu, logo depois a rainha aproximar uma faca na sua garganta. Ela seguia as instruções do Bará, e queria apenas um fio da barba do rei, mas ele acreditou que a esposa deseja sua morte e ambos lutaram. O príncipe que chegara ao palácio com seus guerreiros , escutou os gritos e correu aos aposentos dos pais. Chegando e vendo o rei com a faca na mão, pensou que ele queria matar sua mãe. Por seu lado, o rei, ao ver o filho chegar com seus guerreiros, acreditou que eles desejavam matá-lo. Gritou socorro. Sua guarda acudiu e houve grande luta, o massacre foi generalizado.


7 de março de 2014

Xangô era rei de Oyó, terra de seu pai; já sua mãe era da cidade de Empê, no território de Tapa. Por isso, ele não era considerado filho legítimo da cidade. A cada comentário maldoso Xangô cuspia fogo e soltava faíscas pelo nariz. Andava pelas ruas da cidade com seu oxé, um machado de duas pontas, que o tornava cada vez mais forte e astuto onde havia um roubo, o rei era chamado e, com seu olhar certeiro, encontrava o ladrão onde quer que estivesse. Para continuar reinando, Xangô defendia com bravura sua cidade; chegou até a destronar o próprio irmão, Dadá, de uma cidade vizinha para ampliar seu reino. Com o prestigio conquistado, Xangô ergueu um palácio com cem colunas de bronze, no alto da cidade de Kossô, para viver com suas três esposas: Oyá, amiga e guerreira; Oxum, coquete e faceira e Obá, amorosa e prestativa. Para prosseguir com suas conquistas, Xangô pediu ao Babalaô de Oyó uma fórmula para aumentar seus poderes; este entregou-lhe uma caixinha de bronze, recomendando que só fosse aberta em caso de extrema necessidade de defesa. Curioso, Xangô contou a yansã o ocorrido e ambos, não se contendo, abriram a caixa antes do tempo. Imediatamente começou a relampejar e trovejar; os raios destruíram o palácio e a cidade, matando toda a população. Não suportando tanta tristeza, Xangô afundou terra adentro, retornando ao orun.
Um dia Orumilá saiu de seu palácio para dar um passeio acompanhado de todo seu séquito. Em certo ponto deparou com outro cortejo, do qual a figura principal era uma mulher muito bonita. Orumilá ficou impressionado com tanta beleza e mandou Exu, seu mensageiro, averiguar quer era ela. Exu apresentou-se ante a mulher com todas as reverências e falou que seu senhor, Orumilá, gostaria de saber seu nome. Ela disse que era Iemanjá, rainha das águas e esposa de Oxalá.
Exu voltou à presença de Orumilá e relatou tudo o que soubera da identidade da mulher. Orumilá, então, mandou convidá-la ao seu palácio, dizendo que desejava conhecê-la. Depois de sua visita, Iemanjá ficou grávida e deu a luz a uma linda menina. Como Iemanjá já tivera muitos filhos com seu marido, Orumilá enviou Exu para comprovar se a criança era mesmo filha dele. Ele devia procurar sinais no corpo. Se a menina apresentasse alguma marca, mancha ou caroço na cabeça seria filha de Orumilá e deveria ser levada para viver com ele. Assim foi atestado, pelas marcas de nascença, que a criança mais nova de Iemanjá era de Orumilá. Foi criada pelo pai, que satisfazia todos os seus caprichos. Por isso cresceu cheia de vontades e vaidades e seu nome é Oxum.



24 de fevereiro de 2014

Fotos Históricas

Frei Gabriel Malagrida, uma das encarnações do Caboclo das Sete Encruzilhadas no colégio Anchieta em Friburgo

Primeira página do acordo dos inquisidores no processo contra Gabriel Malagrida, que foi executado em um auto de fé no Rossio em Lisboa, em 21 de setembro de 1761

Pintura do Caboclo das Sete Encruzilhadas feita pelo médium Jurandi da Tenda Nossa Senhora da Piedade
Matéria do jornal A Gazeta, de São Gonçalo/RJ, sobre os candidatos do partido governista para as eleições municipais de 1929

Nossa Senhora da Piedade
Casa de Zelio onde foi fundada a Tenda Nossa Senhora da Piedade

Antigo Congal da Tenda Nossa Senhora da Piedade

Atual Congal da Tenda Nossa Senhora da Piedade onde é mantida a mesa de trabalho como nos primórdios da Umbanda em 1908

Trabalho de desobesessão na mesa da Tenda Nossa Senhora da Piedade em 1973
Zelio de Moraes e sua esposa Dona Isabel

Zelio de Moraes, Dona Isabel e Ronaldo Linhares em 1972

Em 1967, após 59 anos de atividade junto a Tenda Nossa Senhora da Piedade, Zelio entregou a direção dos trabalhos a suas filhas Zélia e Zilméia e passou a viver em Boca do Mato, localidade do Município de Cachoeiras do Macacu/RJ ao lado de sua esposa Dona Isabel. Nesse recanto, continuou a a atender os necessitados, na Cabana de Pai Antonio
Pai Antonio incorporado em Zelio na Cabana de Pai Antonio

Antigo Congal da Cabana de Pai Antonio, onde atualmente funciona a Tenda Nossa Senhora da Piedade

Sete Flechas
Caboclo Sete Flechas incorporado em Zélia de Moraes em 1990 na Tenda Nossa Senhora da Piedade

As filhas de Zelio deram continuidade a Tenda Nossa Senhora da Piedade, porém após o falecimento do marido de Dona Zélia, a mesma se mudou para a Boca do Mato, continuando os trabalhos na Cabana de Pai Antonio, enquanto Dona Zilmeia continuou dirigindo a Tenda Nossa Senhora da Piedade. Essa foto é do Congal da Cabana de Pai Antonio em 1999

Zilméia de Moraes firmando o ponto do Caboclo das Sete Encruzilhadas

Detalhe do Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda em 1941 no Rio de Janeiro

Segundo Congresso Nacional de Umbanda em 1961 no Rio de Janeiro

Jose Manoel Alves, autor do Hino da Umbanda em foto registrada no Primado de Umbanda

Primado de Umbanda em 1965 no Maracãnazinho

21 de fevereiro de 2014

Sete

Quem criou o Hino da Umbanda?

Congresso Nacional de Umbanda

A música do Hino foi composta por Dalmo da Trindade Reis que era Maestro Tenente do Conjunto Musical da Policia Militar do Rio de Janeiro. Já a letra foi escrita por José Manoel Alves, nascido em 05 de Agosto de 1907 em Portugal. Com pouco mais de 20 anos, em 1929, veio para o Brasil, instalando-se em São Paulo, onde ingressou na Banda da Força Pública, ocupando vários postos e aposentando- se como capitão. Em paralelo a esta função exerceu a carreira de compositor de Músicas Populares compondo dezenas de músicas e hinos que foram gravadas por famosos intérpretes da época. Inclusive compôs o hino para o Primado de Umbanda de São Paulo. No entanto, era cego e no início da década de 60, em busca de sua cura foi procurar a ajuda do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Embora não tenha conseguido sua cura porque, segundo consta, sua cegueira era de origem kármica, José Manuel ficou apaixonado pela religião e, ainda em 1960, fez o Hino da Umbanda para mostrar que esta Luz Divina que vem do Reino de Oxalá, não é para ser vista com os olhos físicos, mas sim com olhos do espírito, no encontro da mente com o coração.  Apresentou a letra ao Caboclo, o qual tanto a apreciou, que resolveu nomeá-la como Hino da Umbanda. Em 28 de junho de 1961, durante o Segundo Congresso Brasileiro de Umbanda presidido por Henrique Landi Júnior, onde compareceram cerca de quatro mil médiuns uniformizados, além de grande público assistente, o Hino da Umbanda foi oficialmente adotado em todo o Brasil como o Hino Oficial da Umbanda.

20 de fevereiro de 2014

Pantera Negra

Conta uma lenda que Pantera Negra veio da África, da região do antigo Dahomé, onde era celebrado como protetor da Casa Real. O primeiro nobre desta linhagem, contam os mais velhos, foi um homem-fera, pois tinha pai pantera e mãe humana. É uma entidade muito temida, pois é profundamente justo e não perdoa os fracos de caráter. Poucos médiuns conseguem suportar a incorporação dele ou de outros espíritos da família das panteras. É necessária muita preparação, firmeza de pensamento e moralidade. Seu Pantera é celebrado por uns como Caboclo e por outros como Exu. Contam os mais velhos que Pantera Negra era chefe de uma Linha de Caboclos que atuam na Esquerda. Estes caboclos seriam espíritos oriundos de tribos brasileiras muito isoladas e desconhecidas, ou de tribos das ilhas do Caribe, Venezuela, México e mesmo dos Estados Unidos. Índios fortíssimos, arredios e alguns até brutos. Em algumas terreiras, Pantera Negra se manifesta com o nome de Pantera Negro Africano. A maneira de atuar destes entes é muito parecida com a dos Exus, sendo confundidos com frequência. Alguns adeptos e médiuns que trabalham com estas entidades, acreditam que é o mesmo Pantera. Há quem diga que Seu Pantera atua na linha de Caboclo e de Exu. mesmo mas atua como Caboclo na linha dita branca e como Exu na linha de Exu. O médium que recebe ele como caboclo, dificilmente o recebe como Exu pois são energias distintas, como Caboclo apresenta energia mais sutil e Exu mais densa, porém ambas são muito poderosas. Caboclo ou Exu, Pantera ou Onça, brasileiro ou estrangeiro, ele é mais um mistério da nossa Umbanda.


Procure por todas bandas
Por todas vais encontrar
Seu nome é Pantera Negra
Vai chegar pra trabalhar

Já bateu a meia noite
Vou fazer minha oração
Vai chegar Pantera Negra
Com toda sua legião

13 de fevereiro de 2014

Em uma época onde os deuses viviam na terra, existiu duas jovens irmãs: Oxum e Iansã. Oxum era deusa do ouro e da prata e tinha poderes sobre o ocultismo, Iansã por sua vez era deusa dos raios, tendo assim poderes sobre eles. Oxum carregava consigo o espelho que mostrava toda verdade oculta. Um belo dia Iansã muito curiosa, pegou o espelho e olhou, viu que era mais bonita que Oxum. Toda aldeia ficou sabendo disso e Oxum ficou muito brava. Resolveu dar uma lição em sua irmã, colocou em seu quarto outro espelho, esse mostrava o lado ruim das coisas. Iansã percebendo a troca foi novamente olhar, ficou chocada com o que viu, em vez de ver sua imagem viu um monstro horrível. Entrou numa tristeza profunda e acabou morrendo. Os deuses mais velhos descobriram a vingança de Oxum e decidiram castigá-la. Oxum carregaria Iansã em seu corpo eternamente, seis meses seria Oxum com todas suas características e os outros seis meses seria Iansã. Oxum Opará tem em uma das mãos o espelho e na outra a espada que representa Iansã, dizem que ela é uma deusa guerreira e anda ao lado de Ogum, o deus do ferro e da estrada.
Há muito tempo atrás uma em uma tribo viviam três irmãs: Iemanjá, Oxum e Iansã, que, embora pobres, eram felizes. Iemanjá era a mais velha, Iansã era a menor e teve os cuidados de Oxum, enquanto elas pescavam no rio. Muito grande foi o amor entre as irmãs. Um dia a tribo foi invadida por tropas inimigas. Oxum não podia ouvir os gritos de Iansã, nem ouvir o canto de Iemanjá, pois estava submersa no rio. Assim, o inimigo tomou Iansã em um cativeiro e pediaram o resgate de Iansã. Oxum lentamente começou a manter as moedas de cobre até que ela tivesse dinheiro suficiente para resgatar sua irmã. O chefe tribal, que estava loucamente apaixonado por Oxum e sabia da pobreza dela, dobrou o preço da redenção, enquanto as negociações eram feitas. Oxum se ajoelhou, chorou e implorou, mas o patrão pediu-lhe a virgindade em troca da liberdade da irmã. Pelo amor que tinha por Iansã, Oxum concordou. Quando Iansã voltou para casa, Iemanjá lhe contou o sacrifício que Oxum fizera, e sua irmã em reconhecimento de seu gesto generoso, passa a usar a cabeça e os braços adornados por peças de cobre. Enquanto Iansã estava em cativeiro, Olofin distribuiu bens entre as pessoas de sua tribo: o canto para Iemanjá, que se tornou senhora absoluta dos mares, para Oxum o rio, para Ogum metais e assim por diante. Mas não como Iansã não estava presente, acabou não ganhando nada. Oxum implorou para que seu pai não omitisse sua representação terrena. Olofin ficou pensativo, quando percebeu a justeza do pedido e notou que havia apenas um lugar sem dono: o cemitério. Iansã aceitou de bom grado, e assim tornou-se dona e senhora do cemitério.
Oxum queria saber o segredo do jogo de búzios que pertencia a Bará e este não queria lhe revelar. Ela então procura na floresta as feiticeiras Iyá Mi. As feiticeiras perguntam a Oxum o que faz ali e ela lhes pede como enganar a Bará e conseguir o segredo do jogo de búzios. As feiticeiras a muito querendo pregar uma peça a Bará,  ensinaram toda a sorte de magias a Oxum, mas exigiram que ela lhes fizesse uma oferenda a cada feitiço realizado. Oxum concordou e foi procurar Bará. Ao chegar perto do seu reino, Bará desconfiado perguntou-lhe o que queria por ali, que ela deveria embora e que ele não a ensinaria nada. Ela então o desafia a descobrir o que tem entre os dedos. Bará se abaixa para ver melhor e ela sopra sobre seus olhos um pó mágico que ao cair nos seus olhos o cega e arde muito. Bará gritava de dor e dizia: - Eu não enxergo nada, cadê meus búzios? Oxum fingindo preocupação, respondia: - Búzios? Quantos são eles? - Dezesseis, respondeu Bará, esfregando os olhos - Ah! Achei um, é grande! - É Okanran, me dê ele. - Achei outro, é menorzinho! - É Eta-Ogundá, passa pra cá... E assim foi até que ela soube todos os segredos do jogo de búzios. Ifá o Orixá da adivinhação, pela coragem e inteligência da Oxum, resolveu-lhe dar também o poder do jogo e dividi-lo com Bará.


Numa de suas inúmeras caçadas, sem que tivesse consultado Ifá, Oxóssi encontrou uma cobra no mato: Oxumaré. Ela lhe diz que não pode ser morta por ele, pois não é um bicho de penas, ele pouco se importou com o aviso, e mata-a com a lança, cortando-a em diversos pedaços e levando para casa para ele mesmo preparar um assado, com o qual se refastelou. No dia seguinte, Oxum, sua esposa, prevendo muitas catástrofes, por causa da quebra de tantos tabus, encontra Oxóssi, deitado no chão morto e rastros de cobra que iam em direção a floresta. Oxum chorou tanto e tão alto que Ifá, condoído pela sua dor, fez Odé, o caçador, renascer sob a forma divina de Oxóssi.
Ogum foi fazer uma caça e quando estava com um búfalo na mira de sua arma para derruba-lo, a pele do animal se abre e ele vê Oyá. Linda, ricamente vestida e cheia de ornamentos que valorizavam a sua beleza e sensualidade. Ela pega a pele do búfalo, esconde-a em um formigueiro e sai dirigindo-se para a cidade. Ogum a seguiu e completamente dominado pela sua beleza lhe propõe casamento, que não foi aceito por Oyá. Ogum, em seguida, retorna ao local onde a viu pela primeira vez e pegando a pele de búfalo a guarda para si mesmo, retornando para a cidade. Ele estava determinado a ter a seu lado Oyá e não se daria por vencido. Quando Oyá descobriu o roubo da pele volta à cidade e encontra Ogum esperando por ela, ela o acusa e exige o que é seu. Ogum finge não entender nada e Oyá sente que tem que se render e aceitar a proposta, mas impõe condições: Ninguém nunca poderia saber o seu segredo, ele nunca deveria revelar a ninguém. Ogum aceitou os termos e casaram-se, porém Ogum não estava sozinho, ele tinha outras mulheres que ficaram com ciúmes da bela Oyá e decidiram tomar uma atitude. Elas iriam embebedar Ogum com vinho de palma para dizer-lhes o segredo de Oyá. Então ele contou ser dela um chifre de animal, a pele e os cascos. Oyá fingiu que não era seu, mas quando deixada sozinha, correu até o local e vestindo seus pertences, a força do animal e a raiva vieram a tona e ela atacou e matou as outras mulheres. Desapontada com a traição de Ogum e sua falta de confiança, chorando de raiva por ele ter revelado seu segredo e decepcionada pretendia voltar para a floresta, mas seus filhos a chamavam de volta. Ela então pegou seus chifres e deu-lhes, dizendo-lhes que se eles se precisassem da ajuda dela, era somente bater uns nos outros e ela iria surgir a partir do vento para defendê-los. 
Bará sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os Orixás. Olorun, quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe. Por isso, nas festas que se realizavam no orun, ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a todos. Sempre foi assim, até que um dia os Orixás acharam que o som dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação. Então, eles pediram a Bará que parasse com aquela atividade barulhenta, para que a paz voltasse a reinar. Assim foi feito, e Bará nunca mais tocou seus tambores, respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os Orixás começaram a sentir falta da alegria que a música trazia. As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores. Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Bará que voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem vida. Bará negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a primeira pessoa que encontrasse. Logo apareceu um homem, de nome Ogan. Bará confiou-lhe a missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos Orixás. E, daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans.
Oxumaré, filho de Nanã e Orixalá, recebeu de Olorun uma missão muito especial e importante para dar continuidade ao processo de criação e renovação da natureza. Sua tarefa consistia em carregar, dentro de suas cabaças, toda água da terra de volta para o céu. Era uma tarefa árdua e interminável, pois, nem bem ele enchia as nuvens, a água já começava a escorrer, molhando tudo novamente. Ele não tinha tempo a perder, mas, numa dessas viagens, parou para olhar a terra e viu um imenso lugar, onde tudo era extraído da lama. Estava faltando alguma coisa para dar mais alegria ao lugar. O próprio Oxumaré já tinha colocado em movimento todos os seres criados, como Olorun havia ordenado, mas ainda não bastava, tudo parecia muito igual e sem vibração. Ele resolveu, então, pedir a Olorun que o ajudasse a encontrar uma maneira de trazer mais felicidade para a terra, e Olorun concedeu a ele a realização desse desejo. Quando estava carregando água, sem querer, deixou cair algumas gotas pelo caminho. De repente, formou-se um arco colorido, de uma beleza incrível. Aquele arco mostrava as cores do universo, e, através dele e de suas infinitas combinações, Oxumaré poderia colorir toda a terra com diversos matizes, tornando-a mais alegre e vibrante. A partir de então, formou-se uma aliança entre Olorun e os seres criados, que sempre poderia ser vista quando as águas do céu encontrassem a luz do sol.
Os povos que Olorun criou e deu vida brigavam por um pedaço de terra. Muitas pessoas morriam, para que seus líderes pudessem conquistar extensões maiores para seu reinado. Os limites, para esses guerreiros, eram insuperáveis, e as guerras não tinham mais fim. Xapanã não entendia o motivo destas guerras, já que Olorun havia criado a terra para todos. Indignado com essa situação, resolveu mostrar a eles que a vida é o maior tesouro que alguém pode ter. O poderoso Orixá traçou, então, com seu cajado, um grande círculo no chão, no centro dos conflitos. Colocou dentro dele todo tipo de doença existente. Todo guerreiro, que por ali passasse, iria contrair algum tipo de doença. De fato, foi o que aconteceu. Muitas pessoas adoeceram, inclusive os líderes dos exércitos. Só isso conseguiu por fim às guerras. As doenças se transformaram em epidemias, deixando populações inteiras à beira da morte. Um Babalawô revelou o mau presságio, pedindo a todos que refletissem sobre o que estava acontecendo, por culpa deles próprios. Xapanã havia mandado essas mazelas para a terra, a fim de mostrar que, enquanto temos saúde e uma vida plena, não devemos nos preocupar excessivamente com coisas materiais. Assim, os que aceitaram esses desígnios e fizeram oferendas, conforme explicou o Babalawô, conseguiram livrar-se de suas enfermidades e restabelecer sua dignidade.
Nanã esposa de Orixalá, gerou e deu à luz a um filho. Sua criação não foi perfeita, nascendo uma criança doente, com muitas chagas recobrindo seu pequeno corpo. Ela não conseguia imaginar que maldição era aquela, que trouxe de suas entranhas uma criatura tão infeliz! Sentindo-se impossibilitada de cuidar daquela criança, pois mal conseguia olhar para ela, resolveu deixá-la perto do mar. Se a morte a levasse seria melhor para todos. Iemanjá, que estava saindo do mar, viu aquele pequeno ser deitado nas areias da praia. Ficou olhando por algum tempo, para ver se havia alguém tomando conta dele, mas ninguém aparecia. Então, a grande divindade das água foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou mais perto, pôde compreender que aquela criança tinha sido abandonada por estar gravemente enferma. Sentindo uma imensa compaixão por aquela pobre criatura, não pensou em mais nada, a não ser em adotá-lo como a um filho. Com seu grande instinto maternal, Iemanjá dispensou a ele todo o carinho e os cuidados necessários para livrá-lo da doença. Ela envolveu todo o corpo do menino com palhas, para que sua pele pudesse respirar e, assim, fechar as chagas. Xapanã cresceu e continuou usando aquele tipo de roupa, e ninguém, a não ser sua querida mãe, tinha visto seu rosto. Era um ser austero e misterioso, provocando olhares curiosos e assustados de todos. Ninguém conseguia imaginar o que se escondia sob aquelas palhas. Iansã, certa vez, o encarou, pedindo que descobrisse seu rosto, pois queria desvendar, de uma vez por todas, aquele mistério. Xapanã, sem lhe dar a menor atenção, negou-se a fazê-lo. Ela, que nunca se deu por vencida, resolveu enfrentá-lo. Usando toda sua força, evocou o vento, fazendo voar as palhas que o protegiam. Quando a poeira assentou, Iansã pode ver um ser de uma beleza tão radiante, que só poderia ser comparado ao sol. Nem mesmo ela, como Orixá, conseguia erguer os olhos para ele. Assim, todos entenderam que aquele mistério deveria continuar escondido.
Iansã vivia feliz com Ogum pois os dois tinham muitas coisas em comum, como o gosto pela guerra e o desejo de desbravar novos lugares. Gostavam da companhia um do outro, sentindo-se em harmonia. Iansã gostava muito de vê-lo trabalhar em seu oficio de ferreiro, tentando aprender como ele confeccionava suas armas e ferramentas. Ela pedia insistentemente que lhe fizesse uma arma para guerrear.
Um dia, Ogum a surpreendeu, oferecendo-lhe uma espada curva, que era ideal para seu uso. Isso a agradou muito, tanto que, mais tarde, todo seu exército estava usando esse mesmo tipo de arma. Porém Ogum não a levava em suas batalhas, deixando-a sozinha e entediada. Sem falar no tempo que gastava em seus afazeres de ferreiro. Iansã adorava a liberdade, mas, ao mesmo tempo, não dispensava uma boa companhia. Começou a sentir-se rejeitada por ele. Foi nesse momento que Xangô, o grande rei, foi procurar Ogum, pois precisava de armas para seu exército. Ele era muito atraente e cuidadoso com sua aparência. Era impossível não notar sua presença. Ogum, aceitando o pedido, começou a produzir armas para Xangô, que tinha muita urgência. Ficaria na aldeia o tempo necessário para o término do serviço. Xangô também notou a presença de Iansã, sentindo uma grande atração por ela. Com seu jeito de ser, aproximou-se dela para trocar conhecimentos a respeito de suas habilidades. Descobriram, nessas conversas, que possuíam muitas afinidades, inclusive que não gostavam de viver isolados, assim como Ogum. Iansã estava muito interessada em Xangô e em tudo o que estava aprendendo com ele, mas não queria magoar Ogum, a quem respeitava muito. Xangô propôs-lhe uma união eterna, sem monotonia, sem solidão, viajando sempre juntos por toda a terra. Seria uma união perfeita. Quando Ogum terminou seu trabalho, os dois já haviam partido. Ele ficou enfurecido com a traição de ambos, mesmo sabendo que sua companheira não podia ficar cativa para sempre e partiu atrás deles para vingar sua desonra! Iansã estava vindo ao seu encontro, para explicar-lhe que não poderia mais ficar com ele, pois Xangô a completava, mas que iria respeitá-lo sempre como grande Orixá da guerra. Ogum estava tão enfurecido, que não ouviu o que ela dizia, e foi com grande fúria que investiu contra ela, erguendo sua espada. Iansã, em defesa própria, também o atacou. Ela foi golpeada em nove partes do seu corpo e Ogum em sete, formando curas. Esses números ficaram muito ligados a esses Orixás, assim como as curas, que foram introduzidas nos rituais africanos.

Em tempos muito antigos,  as terras e as águas estavam no mesmo nível, não havendo limites definidos. Logun, que transitava livremente por esses dois domínios, sempre tropeçava quando passava de um reinado para o outro. Esses acidentes deixavam Logun muito irritado. Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava muito escorregadia. Voltou, então, para o fundo do rio, onde começou a cavar freneticamente, com a intenção de suavizar a passagem da água para a terra. Com essa escavação, machucou suas mãos, pés e cabeça, mas conseguiu fazer uma passagem, que tornou mais fácil sua transição. Logun criou, assim, as margens dos rios e córregos, onde passou a dominar. Por esse motivo, suas oferendas são bem aceitas nesse local.

Odé e Oxum constantemente discutiam sobre os limites de seus respectivos reinados, que eram muito próximos. Odé ficava extremamente irritado quando o volume das águas aumentavam e transbordavam de seus recipientes naturais, fazendo alagar toda a floresta. Oxum argumentava, junto a ele, que sua água era necessária à irrigação e fertilização da terra, missão que recebera de Olorun. Odé não lhe dava ouvidos, dizendo que sua caça iria desaparecer com a inundação.
Olorun resolveu intervir nessa guerra, separando bruscamente esses reinados, para tentar apaziguá-los. A floresta de Odé logo começou a sentir os efeitos da ausência das águas. A vegetação, que era exuberante, começou a secar, pois a terra não era mais fértil. Os animais não conseguiam encontrar comida e faltava água para beber. A mata estava morrendo e as caças tornavam-se cada vez mais raras. Odé não se desesperou, achando que poderia encontrar alimento em outro lugar. Oxum, por sua vez, sentia-se muito só, sem a companhia das plantas e dos animais da floresta, mas também não se abalava, pois ainda podia contar com a companhia de seus filhos peixes para confortá-la. Odé andou pelas matas e florestas da Terra, mas não conseguia encontrar caça em lugar algum. Em todos os lugares encontrava o mesmo cenário desolador. A floresta estava morrendo e ele não podia fazer nada. Desesperado, foi até Olorun pedir ajuda para salvar seu reinado, que estava definhando. O maior sábio de todos explicou-lhe que a falta d’água estava matando a floresta, mas não poderia ajudá-lo, pois o que fez foi necessário para acabar com a guerra. A única salvação era a reconciliação.
Odé, então, colocou seu orgulho de lado e foi procurar Oxum, propondo a ela uma trégua. Como era de costume, ela não aceitou a proposta na primeira tentativa pois queria que Odé se desculpasse reconhecendo suas qualidades. Ele, então, compreendeu que seus reinos não poderiam sobreviver separados, unindo-se novamente, com a benção de Olorun. Dessa união nasceu um novo Orixá, um príncipe, Logun-Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais. Logun sempre ficou entre os dois, fixando-se nas margens das águas, onde havia uma vegetação abundante. Sua intervenção era importante para evitar as cheias, bem como a estiagem prolongada. Ele procurava manter o equilíbrio da natureza, agindo sempre da melhor maneira para estabelecer a paz e a fertilidade.
Na cidade de Ifé realizavam-se festividades e rituais por ocasião das colheitas. Os sacerdotes da aldeia, fugindo aos seus costumes, não realizavam as oferendas obrigatórias para três das maiores bruxas conhecidas: as Iyá Mi Oxorongás. Esse ato imperdoável precisava de uma boa punição. Foi assim que elas enviaram um enorme pássaro para assombrar aquela aldeia. A ave ficou pousada no telhado do palácio, de onde podia avistar toda a cidade. Um clima de medo e mau agouro espalhou-se entre os moradores, que não sabiam o que fazer para acabar com aquele terrível monstro. Oferendas foram realizadas para as Oxorongás, mas sem resultado. Era tarde demais para isso. Foi então que alguns caçadores se apresentaram para matar o pássaro das bruxas, mas foram todos derrotados. O último caçador possuía apenas uma flecha, e era a última esperança de livrar a aldeia da morte. Esse caçador era Odé. Sua mãe, que estava longe daquele lugar, teve um mau presságio com relação a ele e consultando um Babalawô, teve a confirmação do que já sabia: seu filho corria grande perigo. Foram necessárias muitas oferendas para que a missão de Odé fosse executada com perfeição e, graças a isso, Odé pôde matar o pássaro com sua única flecha, livrando sua aldeia da aniquilação. Desde então, vem sendo venerado por esse povo.
Oxalufan devia ir na terra de Kùsó visitar seu filho Xangô. Antes, porém, consultou Ifá para saber se tudo correria bem durante a viagem e foi aconselhado a não negar nada a ninguém o que fosse pedido e mais ainda que levasse consigo sabão da costa, obí e três roupas brancas. Seguindo seu caminho, encontrou por três vezes Exu que lhe pediu sucessivamente para ajudá-lo a carregar na cabeça uma barriga de azeite de dendê, uma carga de carvão e outra de óleo de amêndoas. As três vezes Exu derramou o conteúdo sobre Oxalufan. Mas este sem se queixar, lavou-se e trocou as três mudas de roupas e continuou a viagem. Oxalufan havia dado de presente a Xangô um cavalo branco, o qual havia desaparecido do reinado fazia bastante tempo. Os escravos de Xangô andavam por toda parte para encontrá-lo e eis que Oxalufan passando por um mineral, apanhou algumas espigas de milho e ao mesmo tempo deparou-se com o cavalo perdido de Xangô. O cavalo também reconheceu Oxalufan e lhe acompanhou. Nesse instante, chegaram os escravos de Xangô, gritando: Olé Esim Oba, que quer dizer "ladrão do cavalo do rei". Não reconhecendo Oxalufan, deram-lhe vários golpes e em seguida jogaram-no na prisão onde permaneceu por sete anos. Enquanto isso, no reino de Xangô tudo corria mal. Xangô preocupado consultou um Babalawo que lhe revelou: "Algum inocente paga injustamente em tuas prisões". Xangô, então, ordenou que os prisioneiros comparecessem diante dele e reconheceu seu pai. Enviou então os escravos vestidos de branco até uma fonte vizinha para lavar Oxalufan, sem falar uma palavra, em sinal de tristeza. Depois, Xangô, em sinal de humildade, carregou Oxalufan nas costas de volta até o Palácio de Oxaguian. Oxaguian, muito alegre com o regresso de Oxalufan, ofereceu um grande banquete. Esse mito mostra todo o caminho seguido no ritual Águas de Oxalá.

24 de janeiro de 2014



Caridade

Umbanda
A caridade não se faz, se pratica. A cada novo dia, a cada hora da vida. Não se leva nada do mundo a não ser a lição aprendida, a sabedoria absorvida, as emoções guardadas e a caridade que se pratica. Nenhuma força maior da natureza rompe ou desfaz quem atua com a caridade, pois ela é reconhecida e contemplada, e nada e nem ninguém contraria ou desvirtua este comportamento sereno e firme. A caridade é a semente de proveito e de resultado, é a fonte da alma que ilumina o caminho. No entanto, não se comercializa, não é gerada à força e nem pela brutalidade. Aquele que vive com a culpa não conhece a caridade, mas sim a fútil e desagradável ação de fazer, pois deve e se cobra. Aquele que prefere bens materiais ou ter atos egoístas, não conhece a caridade, mas sim o bem de consumo, a palavra que negocia a alma em momentos breves e fugazes. Pare, pense e remonte seus ideais. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Plante sementes de caridade, saiba dar uma palavra amiga ou simplesmente um tempo para ouvir, mantenha uma porta aberta para receber quem precisa, saiba acolher uma alma necessitada. Quando alguém lhe pedir “você tem um tempo para mim?”, pense e analise, mas não se afaste. Devemos nos lembrar sempre das palavras do Caboclo das Sete Encruzilhadas:

“A Umbanda tem progredido e vai progredir, é preciso haver sinceridade [...] É preciso ter muito cuidado, haver moral, para que a Umbanda progrida e seja uma Umbanda de humildade, amor e caridade. É esta a nossa bandeira.” 

19 de janeiro de 2014

Caboclo das Sete Encruzilhadas

Sete Encruzilhadas
Numa tribo de índios da nação Tupi-Guarani vivia um menino que recebeu ensinamentos da cultura cristã e também do pajé da tribo. Estudou na capital do estado e posteriormente na corte recebendo instrução superior de direito. Como advogado teve intensa atividade profissional em defesa de escravos nos tribunais. Também invadia as fazendas de regime escravo libertando os cativos e colocando-os em local seguro. O seu verdadeiro nome era Caboclo das Sete Cruzes Ilhadas por ter nascido em um local onde existiam sete cruzes em uma ilha. Após ter desencarnado, voltou através da mediunidade de Zelio Fernandino de Moraes em novembro de 1908 como espírito mensageiro firmando as bases da Umbanda.

18 de janeiro de 2014

Egungun

No ritual de Egungun reside um dos maiores mistérios da cultura Yorubana. O culto ao Egungun é um culto aos antepassados das pessoas falecidas que eram iniciadas no ritual dos Orixás ou ainda, no próprio ritual de Egun. Na Nigeria, no Togo e Benin as aparições de Egungun são comuns e visíveis a todos os presentes. É também comum na Nigéria ver-se os Ojés (sacerdotes de Egungun), provocando estas materializações, quando jogam várias roupas de Egungun no chão e minutos após, estas começam a inflar e tomar formatos humanos como se corpos existissem dentro de cada uma delas. Tais fenômenos acontecem em plena luz do dia, na rua e diante dos olhos de todos. O ritual começa no Ojubó (camarinha secreta) com oferendas, local onde as roupas são abençoadas e recheadas dos axés do ritual. Posteriormente, é feita a oferenda de um carneiro sobre o pilão o qual será levado à praça pública e invertido no chão, ou seja, colocado de cabeça para baixo. Após tais atos o Ologbô (sumo sacerdote de Egun) manda distribuir as roupas de cada Egungun que irá se materializar, no chão separadas a cada três metros. Ato contínuo, começam as cantorias sob o ritmo frenético dos abados (abanadores de palha) batidos em bocas de porrões (grandes vasos de barro com bocas largas), acompanhados por adjás. Os títulos sacerdotais estão dentro de uma nominação que está determinada em escala ascendente:
1 - Ojé
2 - Eiedun
3 - Ojé Lese Egun
4 - Ojé Alagbá
5 - Alapini
6 - Alagbá
7 - Ologbô
O ritual é masculino e só permite a entrada de mulheres que sejam filhas de Oyá Igbalé, Oyá Zagan, Oyá Messe, Oyá Tolú e Oyá Izô. Existe um cargo intermediário com o nome de “Ojé Lesse Orisá”, que determina uma intermediação entre o Egungun e o xirê dos Orixás ligados aos antepassados. O ritual é complexo e exige uma iniciação demorada para aqueles que dele querem fazer parte. A Invocação chamada Zerim ou Sirrum consiste de cantigas ancestrais de louvação a cada Egun Babá e tem como base sonora os potes de boca larga, agogôs, cabaças e aguidares com água. Alguns tambores também são usados e se diferenciam dos demais por serem cobertos com couro de carneiro. As roupas pertencentes aos Babás são confeccionadas em lantejoulas, vidrilhos, canutilhos, espelhos, cetim, telas e uma mistura de tecidos variados contrastantes entre si. Estas roupas não têm aberturas e são totalmente fechadas da cabeça até os pés. É comum ver um Babá sentar-se em um trono e gradativamente começar a desinflar até esvaziar a roupa, diante de todos os assistentes. Cada Babá tem a sua peculiaridade, sua cantiga própria, sua entonação de voz, sua roupa e sua linhagem totêmica. Também materializam presentes que deixam para seus filhos e amigos. Os Babás não devem ser tocados por mão humana e para tanto são dirigidos durante suas apresentações por Ojés que têm nas mãos os Inxans (vara de amoreira) que os conduzem com pequenos toques. Porém, algumas vezes os Babás permitem que alguém lhes apertem um braço ou uma mão para que todos tenham a certeza de que não existe uma pessoa dentro daquela roupa. Os Babás gritam e falam geralmente no dialeto Yorubá, no que é traduzido pelo Ojé que o acompanha. Existem várias qualificações de Egun conforme seus ritos, suas roupas, paramentos e maneira de se comportarem. As classificações, em verdade, são extensas. Os Egun-Agbá (ancião), também chamados de Babá-Egum (pai), são Eguns que já tiveram os seus ritos completos e permitem, por isso, que suas roupas sejam mais completas e suas vozes sejam liberadas para que eles possam conversar com os vivos. Os Apaaraká são Eguns mudos e suas roupas são as mais simples: não têm tiras e parecem um quadro de pano com duas telas, uma na frente e outra atrás. Esses Eguns ainda estão em processo de elaboração para alcançar o status de Babá; são traquinos e imprevisíveis, assustam e causam terror ao povo.
O eku dos Babá são divididos em três partes: o abalá, que é uma armação quadrada ou redonda, como se fosse um chapéu que cobre totalmente a extremidade superior do Babá, e da qual caem várias tiras de panos coloridas, formando uma espécie de franjas ao seu redor; o kafô, uma túnica de mangas que acabam em luvas, e pernas que acabam igualmente em sapatos e o banté, que é uma tira de pano especial presa no kafô individualmente decorada e que identifica o Babá. O banté, que foi previamente preparado e impregnado de axé é usado pelo Babá quando está falando e abençoando os fiéis. Ele sacode na direção da pessoa e esta faz gestos com as mãos que simulam o ato de pegar algo, no caso o axé, e incorporá-lo. Ao contrário do toque na roupa, este ato é altamente benéfico. Não se pode confundir Egun e Egungun. Eguns são todos os espíritos de pessoas falecidas. Egunguns são espíritos de sacerdotes e sacerdotisas falecidos, ou seja, pessoas que foram iniciadas no ritual do Orixá ou no próprio ritual de Egungun. Enquanto no âmbito dos Eguns existem obsessores, os Egunguns são espíritos antepassados que cuidam em dar continuidade à cultura e às tradições étnicas e tribais, para que seus sucessores (os vivos) tenham a melhor condição de vida possível. Egungun não aceita a mentira e a depravação e tao pouco a corrupção dos costumes e da ritualística. Por essa razão, pouquíssimas são as casas de Candomblé de Egungun no Brasil.

5 de janeiro de 2014

Ogum Beira Mar

Ogum Beira Mar é o senhor da sétima onda, indomável e imbatível defensor da lei e da ordem, é quem toma conta da beira da praia, onde há a arrebentação das ondas. Fiel guerreiro de Iemanjá, é ele quem encaminha os pedidos feitos a Mãe. Os búzios deixados na beira da praia são adereços deixados por ele que recebe-os de Iemanjá e deposita-os nas areias das praias, presenteando todos filhos de fé, por isso peça permissão a Ogum Beira Mar para retirá-los. Quando manifestado o Caboclo Beira Mar possui uma postura bem ereta de peito inflado, alguns usam capas e armadura. Ogum Beira-Mar comanda muitas falanges como, por exemplo: Ogum Sete-Ondas, Ogum Sete-Mares, Ogum Marinho...
Conta uma lenda que ao chegar a uma aldeia, Ogum Beira Mar ficou furioso. Ele falava com as pessoas, mas ninguém o respondia. Isto aconteceu sucessivas vezes, e sempre que se dirigia a um morador da aldeia só tinha silêncio. Ele achou que as pessoas da aldeia estavam zombando dele e num ato de fúria usou seu poder e matou a todos que ele pensava estarem o humilhando. Um dia ao passar por outra aldeia ele contou a um ancião o ocorrido e este lhe disse que na aldeia por onde Ogum passara as pessoas, naquela época do ano, faziam um voto de silêncio por alguns dias. Ao saber disso ele ficou enfurecido consigo e envergonhado, foi em direção ao mar, parou e fitou seus olhos na sétima onda, e ali jurou proteger os mais fracos e todos aqueles que estivessem sofrendo injustiças, discriminações e qualquer tipo de perseguição injusta, após o juramento o mar começou a jogar conchas nas areias das praias.

Alguns de seus pontos:

Lá no Humaitá
Aonde Ogum guerreou
Lá em alto mar
Aonde Iemanjá lhe coroou
Beira-Mar auê Beira-Mar 
Beira-Mar auê Beira-Mar 
Beira Mar quem está de ronda é militar
Ogum já jurou bandeira
Nos campos do Humaíta
Ogum já venceu demandas
Vamos todos saravá

Se meu Pai é Ogum, Ogum
Vencedor de demanda
Quando chega no reino é para salvar filhos de Umbanda
Ogum, Ogum Iara
Ogum, Ogum Iara
Salve os campos de batalha
Salve as sereias do mar
Ogum, Ogum Iara

Pai Ogum Beira-Mar
O que trouxes do mar
Pai Ogum Beira-Mar
O que trouxes do mar
Quando ele vem, beirando a areia
Vem trazendo no braço direito
o Rosário da Mamãe Sereia