14 de março de 2013

No começo não havia separação entre o orum e o aiê. Homens e divindades iam e vinham, coabitando e dividindo vidas e aventuras. Conta-se que, quando o orum fazia limite com o aiê, um ser humano tocou o orum com as mãos sujas. O céu imaculado do Orixá fora manchado. O branco imaculado de Obatalá se perdera. Oxalá foi reclamar a Olorum. Olorum, Senhor do céu, Deus supremo, irado com a sujeira, o desperdício e a displicência dos mortais, soprou enfurecido seu sopro divino e separou para sempre o céu da terra. Assim, o orum separou-se do mundo dos homens e nenhum homem poderia ir ao orum e retornar de lá com vida. E os Orixás também não podiam vir à terra com seus corpos. Agora havia o mundo dos homens e o dos Orixás, separados. Isoladas dos humanos habitantes do aiê, as divindades entristeceram. Os Orixás tinham saudades de suas peripécias entre os humanos e andavam tristes e amuados. Foram queixar-se com Olodumaré, que acabou consentindo que os Orixás pudessem vez por outra retornar à terra. Para isso, entretanto, teriam que tomar o corpo material de seus devotos. 

Candomblé

Oxum, que antes gostava de vir à terra brincar com as mulheres, dividindo com elas sua formosura e vaidade, ensinando-lhes feitiços de adorável sedução e irresistível encanto, recebeu de Olorum um novo encargo: preparar os mortais para receberem em seus corpos os Orixás. Oxum fez oferendas a Bará para propiciar sua delicada missão. De seu sucesso dependia a alegria dos seus irmãos e amigos Orixás. Foi ao aiê e juntou as mulheres à sua volta, banhou seus corpos com ervas preciosas, cortou seus cabelos, raspou suas cabeças, pintou seus corpos. Pintou suas cabeças com pintinhas brancas, como as pintas das penas da conquém, como as penas da galinha-d’angola. Vestiu-as com belíssimos panos e fartos laços, enfeitou-as com jóias e coroas. O ori, a cabeça, ela adornou ainda com a pena ecodidé, pluma vermelha, rara e misteriosa do papagaio-da-costa.
Nas mãos as fez levar abebés, espadas, cetros, e nos pulsos, dúzias de dourados braceletes. O colo cobriu com voltas e voltas de coloridas contas e múltiplas fieiras de búzios, cerâmicas e corais. Na cabeça pôs um cone feito de manteiga de ori, finas ervas e obi mascado, com todo condimento de que gostam os Orixás.
Esse oxó atrairia o Orixá ao ori da iniciada e o Orixá não tinha como se enganar em seu retorno ao aiê. Finalmente as pequenas esposas estavam feitas, estavam prontas. Estavam prontas para os deuses. Os orixás agora tinham seus aparelhos, podiam retornar com segurança ao aiê, podiam ocupar o corpo das devotas. Os humanos faziam oferendas, dançavam e rezavam para os Orixás, convidando-os à terra, aos corpos das iaôs. Então os Orixás vinham e tomavam seus corpos. E, enquanto os homens tocavam seus tambores, vibrando os batás e agogôs, soando os xequerês e adjás, enquanto os homens cantavam e davam vivas e aplaudiam, convidando todos os humanos iniciados para a roda do xirê, os Orixás dançavam e dançavam e dançavam. 
Os Orixás podiam de novo conviver com os mortais. Os Orixás estavam felizes.
Estava inventado o Candomblé.

Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás

Arquétipo dos filhos de Iemanjá


Arquétipo dos filhos de Ogum


13 de março de 2013

Desenvolvimento na Umbanda

É muito constante as pessoas terem dúvidas em relação ao tempo de desenvolvimento para uma incorporação firme na Umbanda. Porém o desenvolvimento é exatamente isso que diz a
palavra: desenvolver-se. É aprender, é evoluir. E isso não somente se incorporando, mas aprendendo fundamentos e lições no dia a dia, com o passar do tempo.  Quantas pessoas dizem que é muito melhor ser cambono do que ser médium? Porque o cambono está sempre vendo, ouvindo, e aprendendo. No desenvolvimento de incorporação é muito normal que demore até a entidade se afinar com você. Até que vocês dois possam trabalhar juntos e em sintonia demora um tempo relativamente grande, as vezes até anos. Lembre-se que isso é tão novo para você quanto para ela, tanto que quando uma entidade começa a se manifestar, ela precisa aprender os costumes e preceitos da casa, como por exemplo saudar a porta, o tambor, o congal...  Quando a entidade chega pero de você a fim de incorporar, é como se vocês dois levassem um choque, o que é normal visto que a entidade é um ser iluminado e vibra muito acima de nós. Algumas pessoas afirmam que o correto é começar a se desenvolver com Caboclos ou Pretos Velhos, o que não quer dizer que isso esteja certo ou errado, porém nós acreditamos que o ideal é começar por Exu ou Pomba Gira, sendo que os mesmos são as entidades mais próximas de nós no sentido terreno da palavra.
Quantas vezes vemos pessoas que mal chegaram na religião e já estão trabalhando com suas "entidades", bebendo, usando paramentas e dando consulta? Até que ponto vai a firmeza da entidade e o ego da pessoa? Até que ponto essas pessoas estão na religião só para se dizerem incorporadas e dar vazão a atitudes e vestimentas duvidosas? 
Se você está começando a se desenvolver agora, tenha calma e controle sua ansiedade. Afinal o importante dentro da religião não é o tempo que você leva para desenvolver-se e sim a forma como isso acontece. 

Umbanda

5 de março de 2013

Certo dia cheguei a um terreiro com a intenção de tomar um passe com um Preto Velho. Nesse dia não estava me sentindo mal, ou desesperada por ajuda. Apenas queria ouvir algumas sábias palavras e aproveitar para me descarregar. Porém qual não foi a minha surpresa ao adentrar a porta e ouvir da pessoa que me atendeu que "não tinha mais senha para aquele dia, que eu deveria chegar mais cedo". Saí de lá atônita, não acreditando que realmente tinha ouvido aquilo. E se naquele momento eu estivesse desesperada, em busca de ajuda, pensando talvez até em suicídio, será que iria esperar até amanhã para matar-me?
Acredito fielmente que Umbanda é caridade e amor ao próximo, e se alguém bate a sua porta pedindo ajuda, você precisa atendê-la e não mandá-la voltar amanhã. Se você se dispôs a servir os Orixás, a ser instrumento de trabalho, a servir como médium em prol dos outros, então você deve faze-lo sob quaisquer circunstâncias. Não importa se é dia ou noite, se estamos exaustos, com fome ou cansados de ficar em pé atendendo por horas e horas uma assistência incansável. Se alguma pessoa procura ajuda em sua casa, é no mínimo seu dever atendê-la de boa vontade. Não devemos nos dispor a fazer algo se não temos condições. Não devemos assumir responsabilidades se não nos sentimos prontos o suficiente. Não devemos querer ajudar se não temos maturidade suficiente. Não devemos querer dar aquilo que não temos. Se você, médium Umbandista saiu de casa hoje para ir ao terreiro participar da corrente cansado, estressado e com vontade ter ficado em casa, não vá. Se você tomou um banho de descarga,colocou seu branco e sua guia no pescoço, vista esse "uniforme" de corpo e alma, e atenda cada pessoa com um sorriso no rosto e boa vontade no coração. Afinal o sofrimento alheio não tem hora nem local para bater a sua porta.