22 de dezembro de 2013

Cabocla Jupira

Diz a história que a Cabocla Jupira, guerreira e flecheira é a primeira filha da Cabocla Jurema com o Caboclo Sete Flechas, irmã de Jandira, Jacira e Jaciara. Em terra, a Cabocla Jupira tem uma postura muito firme com olhos cerrados e diferentemente de outras Caboclas, quase não dança e é uma das únicas que usa penacho, pois representa a coroa de sua mãe Jurema, a rainha das matas e florestas. Jupira é a princesa das matas que mora no Jacutá, nome dado ao ponto de força de Iansã. Trabalha em descarregos e principalmente na limpeza dos ambientes. Suas cores principais são o amarelo, verde e vermelho, podendo usar o azul anil. Essa índia guerreira viveu entre os índios Caetés, no interior de Alagoas. Sua tribo praticava o canibalismo em rituais de sacrifício como forma de preservar a raça e mostrar sua força aos conquistadores. Jupira era veloz, inquieta e sabia manejar a lança como ninguém. Seu pai não gostava que ela se envolvesse em pendengas masculinas, mas não conseguia contê-la. Era ardente como o sol, inquieta como o vento e escorregadia como a água. Sabia ocultar-se nas matas e usar o arco e flecha com destreza. Quando os portugueses invadiram suas terras e investiram com furor, alguns conseguiram se salvar fugindo para o interior das matas não conquistadas. A Cabocla Jupira quedou em combate ao lado de seu noivo Juperê e de sua tribo. Morreu fazendo aquilo que mais gostava de fazer: lutar. Hoje ela trabalha na linha de Iansã e não é difícil vê-la em giras pra Xangô.

Numa noite estrelada
E com a lua para lhe guiar
Dona Jupira saiu da sua aldeia
E entrou nas matas para caçar
Linda morena Cabocla guerreira
Atirou sua fecha para não errar

7 de dezembro de 2013


Oxalá criou a terra
Oxalá criou o mar
Oxalá criou o mundo
Onde reina os Orixás
A pedra deu pra Xangô
Meu pai é rei justiceiro
As matas deu para Oxóssi
Caçador grande guerreiro
Mas a pescaria farta
Ele deu para Iemanjá
Os rios deu para Oxum
Os ventos para Oyá
Grandes campos de batalha
Deu para Ogum guerreiro
Campinas Pai Oxalá
Deu para seu boiadeiro
Já os lindos gramados
Deu para as crianças brincar
Oxalá criou o mundo
Onde reina os Orixás
O poço deu para Nanã
A mais bela Orixá
E o cruzeiro bendito
Deu pras almas trabalhar
Finalmente deu as ruas
Com estrela e luar
Para Exú e Pomba Gira
Nossos caminhos guardar

24 de outubro de 2013

Zélio de Moraes falando da anunciação da Umbanda


Essa gravação foi realizada em novembro de 1971, 63º aniversário da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e da Religião da Umbanda no Brasil. Na abertura da gravação ouvimos o ponto de chamada do Caboclo das Sete Encruzilhadas:
"Chegou , chegou com Deus, chegou, chegou o Caboclo das Setes Encruzilhadas". O texto começa com Zélio de Moraes falando “Ao meu lado está o Caboclo das Sete Encruzilhadas”, a impressão que dá é que ele está ouvindo e repetido as palavras do Sr Sete Encruzilhadas, para, logo em seguida este lhe tomar a frente da comunicação. Este é um dos poucos registros em que, de forma direta e incisiva, é abordada a criação e o nascimento da Religião de Umbanda, por seu idealizador e praticante primeiro:
"Queridos irmãos, ao meu lado está o Caboclo das sete Encruzilhadas para dizer a vocês que esta Umbanda tão querida de todos nós, fez ontem 63 anos, que na Federação Kardecista do estado do Rio, presidida por José de Souza, conhecido por Zeca e rodeado de gente velha, homens de cabelos grisalhos, um enviado de Santo Agostinho chamou meu aparelho, me chamou, para sentar a sua cabaceira. Trazia uma ordem, fora jesuíta até aquele momento, chamava-se Gabriel Malagrida, daquele instante ele ia criar a Lei de Umbanda, onde o Preto e o Caboclo pudessem manifestar porque ele não estava de acordo com a Federação Kardecista que não recebiam Pretos nem Caboclos. Pois se o Brasil, o que existia no Brasil eram Caboclos, eram nativos, se no Brasil, quem veio explorar o Brasil, trouxe para trabalhar, para engrandecer este país, eram os Pretos da costa da África, como é que uma Federação Espírita não recebia Caboclo nem Preto? Então disse eu, disse o espírito: Amanhã na casa de meu aparelho na Rua Floriano Peixoto 30, será inaugurado uma Tenda Espírita com o nome de Nossa Senhora da Piedade, que se chamará Tenda de Umbanda, aonde o Preto e o Caboclo pudessem trabalhar. Houve balburdia, embora eles reconhecessem a mediunidade que eu trazia, mas eu era muito moço pois tinha feito 17 anos e por doença fui levado a federação, porque os médicos não me davam jeito. Então este espírito que nós chamamos o Chefe, o Caboclo das sete Encruzilhadas, implantou na federação, chamando aqueles senhores, todos de cabelos grisalhos, senhores de responsabilidade, para assistirem a sessão na Rua Floriano Peixoto nº 30. E o presidente da federação perguntou: E o meu irmão vai acreditar que lá tenha alguém amanhã? A minha resposta, a resposta do Caboclo: Botarei no cume de cada montanha que circula Neves, uma trombeta tocando, anunciando a existência de uma Tenda Espírita onde o Preto e o Caboclo pudesse trabalhar. Foi a 15 de Novembro de 1908. No dia 16 de novembro a nossa casa ficou cheia, ficou cheia, e eu posso dizer aos meus irmãos, só fiz levado por este espírito que é o nosso guia porque eu não queria aceitar, eu estava sem saber, achando uma coisa extraordinária. Eu ia assumir uma responsabilidade de ter uma Tenda Espírita, de receber um guia pra fazer que os doutos, doutores fossem lá, buscar a cura de seus entes queridos".

Nessa parte da gravação percebe-se que o Caboclo das Sete Encruzilhadas assume seu aparelho:
"Pois meu irmão, tudo isto fiz eu, o meu anunciar da Tenda foi tomar o meu aparelho e começar a produzir, a curar aqueles que estavam lá, ou fosse por isso, ou fosse por aquilo, mas Deus que é sumamente misericordioso levou um cego e outras pessoas, como também paralíticos na Tenda da Piedade, na minha frente, eu disse à vista de todos: Se tem fé levanta e caminha, porque quando chegar perto de mim estarás curado. Passaram-se os anos e tudo aquilo que eu disse, a pelanta que está presente de muitos anos que me acompanha, falando, pedindo e trazendo exemplos de Jesus quando passou na terra, que foram ao seu encalço pedir harmonia para sua casa, a resposta foi essa: Você, feche os olhos para a casa dos seus vizinhos, feche a boca para não murmurar contra quem quer que seja, não julgues para não ser julgado, pense em Deus que a paz entrará na sua casa herdas do evangelho e tomaram por ensinamento as minhas palavas e a Tenda começou a seguir o seu ritmo aquilo que eu desejava. Passado alguns anos já em 20 e poucos em 18 no fim da guerra anunciava que camadas negras baixariam ao planeta terra e quem em 69, em 69, 68, esse espíritos já estariam encarnados em outros corpos e viriam trazer a perturbação nesse planeta. A mulher perderia a honra e a vergonha e o homem o caráter atento a quem assistiu está presente, no entretanto, a igreja, o Vaticano estava de greve eu sentia que os tempos se aproximavam e o Papa não seria respeitado porque os bispos seriam os primeiros a não querer ouvir as ordens emanadas do Vaticano. Estão vendo o que está se passando atualmente nós estamos sabendo o que se passa pelo mundo inteiro. Já o Papa não tem aquelas, não se respeita as palavras do Papa infelizmente porque a religião, seja ela qual for, desde que tenha por base cristã em Deus, acredito  que seja uma religião boa. Desejar ao seu próximo aquilo que deseja para si, cumprir os mandamentos da lei de Deus é ser perfeito e principalmente em qualquer religião, mas principalmente na religião espírita para que o médium seja um instrumento que possa ser tocado por qualquer professor de música que venha executar uma... qualquer coisa, uma valsa, qualquer música enfim. Por isso meus irmãos, criei sete Tendas na Capital da Republica no Distrito Federal, a primeira foi criada e entregue a nossa irmã Gabriela, mais tarde 2 anos ou 3 anos depois passei para José Meireles, que foi também, que era um deputado federal, que foi em busca da cura de sua filha e a resposta do velho Pai Antônio: Vai a tua casa no último canteiro vais arrancar, mexer a terra e encontrar umas raízes, vai cozinhar essas raízes e dar a tua filha que ela está curada. Era batata da angélica porque não havia naquela ocasião flores, as batatas estavam somente debaixo da terra. Foi um esteio, foi um elo, foi um braço direito pra me ajudar para que essa Umbanda chegasse ao ponto que está chegando. Depois das Tendas criadas, criei a Tenda da Nossa Senhora da Guia de Oxóssi, criei a Tenda de Oxalá, a Tenda de Ogum, a Tenda de Xangô, a Tenda de Santa Bárbara, enfim, criei sete Tendas. Depois de elas funcionarem, depois de tirar os médiuns dessa Tenda para que os médiuns pudessem trabalhar em outras Tendas, formadas estas Tendas vamos criar a Federação de Umbanda no Brasil. Chamei Idelfonso Monteiro, Maurício Marcos de Lisboa, Major Alfredo Marinho Ravache, hoje General, era Major naquele tempo, enfim, botei cinco pessoas para se fazer a Federação de Umbanda no Brasil. Criou- se a Federação e ela começou, então a Federação Kardecista veio embargando porque não podia ter espírita, não podia ter em nome certas coisas do mundo, mas a Federação de Umbanda foi criada, está criada e está funcionando. Mais tarde a Tenda da Piedade continuou a trabalhar contando com a assistência deste aparelho que falo, continuou a produzir, a curar, porque a cura de loucos nestes 63 anos, trabalhando para uma casa de saúde, que os médicos nos procuravam, iam a nossa casa, a casa do meu aparelho para pedir, para saber quais os loucos que tinham cura, dando os nomes e apontando: esse, esse, esse e esse tem cura, os outros não, porque esses são atuados por espíritos e nós vamos afastar estes espíritos e a maluquice passa. Veio então mais tarde à formação de um jornal de propaganda para a nossa Umbanda, aí contamos com o secretário da Tenda, Luiz Marinho da Cunha, contamos com Leal de Souza e outros que eram fervorosamente espíritas, pelas coisas que ele sentiu e pelas coisas que ele recebeu, das graças de Deus, transmitidas por nós a sua pessoa. E meus irmãos, a Umbanda continua, nasceu em 1908 na Federação Kardecista de Niterói, está lá escrita, presidida por José de Souza, que conheciam por Zeca que era chefe do toc toc em Niterói, Antônio Joaquim da Costa, Joaquim Santino Costa, José Tavares, José, enfim uma quantidade está tudo escrito e a Umbanda começou em 1908 na Federação Kardecista de Niterói. Hoje, a Umbanda está em todos os estados porque médiuns daqui saíram para o Rio Grande porque não pude levar o meu aparelho lá, mas levei ao estado do Rio, levei a São Paulo onde criei mais de vinte Tendas, em Minas, enfim, no Espirito Santo também tem, de curas que fez lá e foi necessário se fazer Tendas espíritas da nossa Umbanda querida nestes estados. A Umbanda tem progredido e vai progredir, é preciso haver sinceridade na Umbanda, sinceridade, este amor de irmão para irmã porque eu prevenia, sempre prevenia apelando para o General, hoje General e para companheiros que me acompanham a muitos anos: a vil moeda vai atrapalhar a Umbanda, médiuns que vão se vender e que serão mais tarde expulsos como Jesus expulsou os vendilhões do templo. Um perigo do médium homem e a consulente mulher, do médium mulher e o consulente homem. É preciso estar sempre de prevenção porque os próprios objetores, os próprios espíritos que atacam as vossas casas fazem com que toque alguma coisa ao coração da mulher que fala com pai de terreiro como faz atacar o coração do homem que fala a mãe de terreiro e é preciso ter muito cuidado, haver moral, para que a Umbanda progrida e seja uma Umbanda de humildade, amor e caridade. É esta a nossa bandeira. E acreditem vocês meus irmãos, acreditem vocês, que neste momento me rodeiam diversos espíritos que vem trabalhando na Umbanda do Brasil. Por que havia necessidade, não veio por acaso não, eu trouxe uma ordem, uma missão, porque venho há muito tempo dizendo aquilo que ia acontecer, desde o terremoto de Lisboa em 1755* até este momento e tudo aquilo que eu dizia que ia acontecer acontecia. Pois bem, sejam humildes, tragam amor no coração, mas amor de irmão para irmão porque as vossas mediunidades ficarão muito mais limpas e puras, úteis a qualquer espírito superior que possa baixar. Que os vossos aparelhos estejam sempre limpos, que os vossos instrumentos estejam sempre afinados com as virtudes que Jesus pregou na Terra para que tenhamos boas comunicações, boas proteções, para todos aqueles que possam ir em busca de socorro nas nossas casas de Umbanda, nas nossas casas de caridade em todo Brasil.  Meus irmãos, este aparelho está velho já com 80 anos a fazer, mas começou antes dos 18, se eu disser que eu o ajudei para que ele pudesse se casar, para que ele não pudesse andar dando cabeçadas, para que fosse um médium aproveitável, como eu disse na federação e está lá escrito, fui procurar as mediunidades que ele tinha para fazer a nossa Umbanda no Brasil, e todos estes, a maior parte ou todos estes que trabalham em Umbanda se não passaram por esta Tenda, passaram por filhos saídos desta Tenda que criaram outros Terreiros. Das sete Tendas criadas por mim no Distrito Federal, muitas Tendas tem saído para fazer a caridade ao seus semelhante ao seu próximo. Tenho uma coisa  a vos pedir: A lembrança que Jesus veio ao planeta Terra na humilde manjedoura não foi por acaso não, foi porque o Pai assim quis e determinou porque podia ter procurado uma casa de um potentado daquela época do cristiano e outros, mas não, foi escolher aquela que seria Mãe de Jesus, o espírito que vinha traçar à humanidade seus passos para ter saúde paz e felicidade. Aproveitando o nascimento de Jesus, a humildade que ele baixou nesse planeta, na humilde manjedoura, que os anjos que anunciaram a Maria que ela ia ser mãe sem ser esposa, os anjos, a estrela que iluminou aquele presépio, aquele estábulo, que levou os Três Reis Magos a sua presença firma pra vocês, iluminando os vossos espíritos que os que tenham praticado, que Deus perdoe tudo aquilo que vocês tenham feito. Que Deus perdoe as maldades que possam ter sido pensadas para que a paz possa reinar nos vossos corações e nos vossos lares. Eu meu irmão, como o menor espírito que baixou nesta terra, mas amigo de todos, numa concentração perfeita de espíritos que me rodeiam neste momento, que eles sintam a necessidade de cada um e ao saírem deste templo de caridade, que vocês encontrem os caminhos abertos, os vossos enfermos melhorados e curados e a saúde para sempre nas vossas matérias.Com paz saúde e felicidade, com humildade amor e caridade, sou e serei sempre o humilde Caboclo das sete Encruzilhadas".

*Em vida o Caboclo das Sete Encruzilhadas foi o Jesuíta Frei Gabriel de Malagrida, que previu este terremoto, perseguido pelo Marques de Pombal. Foi vítima de intrigas que o levaram a fogueira da “Santa Inquisição”, tendo por acusação maior ter previsto este terremoto. 

19 de setembro de 2013

Atabaque Nzinga

Nzinga é um filme sobre a cultura afro-brasileira, no qual a protagonista é atraída pelo "chamado do tambor" em busca do autoconhecimento. Viajando pelas estradas de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, ela conhece diferentes ritmos, grupos musicais e coreográficos, procurando e encontrando sua integração na sociedade brasileira.

Assista ao filme completo:



18 de setembro de 2013

Quem é Exu?

UmbandaExu é um guardião pertencente a uma organização mundial voltada para a preservação da harmonia e do equilíbrio nos diversos planos da vida. Comprometidos com a ordem e a disciplina espirituais, possuem diversas atribuições junto à humanidade, desde a proteção individual a pessoas que têm responsabilidades espirituais, sociais, religiosas ou políticas, à proteção de comunidades, países, continentes e do próprio planeta. As atribuições dependem sobretudo da hierarquia a qual pertencem. É interessante observar o sentido original do termo Exu, que representa, no contexto da mitologia africana, o princípio negativo do universo, em oposição a Orixá, que seria a polaridade positiva. Os Exus são, por outro lado, entidades que atuam como elemento de equilíbrio e de ligação com o aspecto negativo da vida e com os seres que se
apresentam como marginais do plano astral. Na verdade, Exu é uma força da natureza, a contrapartida de Orixá. Tudo é duplo na natureza, tudo possui a polaridade positiva e a negativa: homem e mulher, masculino e feminino, luz e sombra. São apenas duas faces de uma mesma realidade. Assim sendo, para a cultura africana, Orixá representa o lado positivo, enquanto Exu, o lado negativo. Repare: negativo, e não mal; apenas o oposto, a polaridade. Exu é força de equilíbrio da natureza, é a força da criação, é o princípio de tudo, é nascimento. Exu representa o equilíbrio negativo do universo, o que não quer dizer coisa ruim. Exu é a célula da criação da vida, aquele que gera o conflito, variadas vezes. Refiro-me ao conflito que promove o progresso do ser. Exu está presente, mais que em tudo e todos, na concepção global da existência. Nada é somente positivo, a existência em si tem dois lados opostos e, ao mesmo tempo, complementares. Isso é Exu, na concepção de força da natureza e na cosmologia africana. É, ainda, a propriedade dinâmica de tudo que possui vida. Como entidade reencarnante ou como espírito imortal, Exu representa a abertura de todos os caminhos e a saída de todos os problemas. Exu é o guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas, é o intermediário entre os homens e os deuses, na concepção africana. Há muitos espíritos que na terra tiveram experiências na carreira militar ou em alguma outra função que lhes propiciasse o desenvolvimento de certas qualidades necessárias a um guardião. Quando desencarnam, são aproveitados como tal. Oferece-se ao espírito a oportunidade de continuar, no mundo extrafísico, trabalhando naquilo que sabe e, desse modo, aperfeiçoar seu conhecimento e ganhar mais experiência. Muitos militares do passado, comprometidos com o mau uso do poder e da autoridade, são convocados e convidados a se reeducarem nas falanges dos guardiões, reaprendendo seu papel. Para tanto, defendem as obras da civilização em geral, o patrimônio cultural e as instituições beneméritas. Outros espíritos, que dominaram certos processos e meios de comunicação, quando encarnados, são convidados e estimulados a trabalhar nos vários laboratórios e bases de comunicação a serviço dos guardiões. Generais, guerreiros, soldados, comandantes ou os simples recrutas, das diversas forças armadas da terra, são aproveitados com a experiência que adquiriram. Transcorrido o tempo natural de transição, após a morte física, é apresentado a esses espíritos a oportunidade de se refazerem emocional e moralmente. Tal oportunidade são as atividades que poderão desempenhar, obedecendo a um propósito superior. Ao espírito desencarnado são apresentadas basicamente duas opções: ou ele permanece presa de seu sentimento de culpa, forjando situações aflitivas em torno de si, ou libera-se da culpa. Nesse caso, abrem-se inúmeras possibilidades de trabalho, aproveitando-se as experiências vividas e valorizando as aquisições pessoais. Qualquer experiência, ainda que equivocada ou difícil, é reorientada, com objetivo útil à causa do bem e do equilíbrio. Caso o espírito opte pela segunda alternativa e assimile a ideia de continuar trabalhando em prol da humanidade, são ampliadas suas oportunidades à medida que amadurece. Obviamente cada qual é responsável pelas consequências de seus atos: isso é imutável. Porém, a lei não impõe sofrimento a ninguém; ela dá oportunidades de reparação e resgate no desempenho de tarefas dignificantes. O sofrimento é resultado da mente culpada, que forja, ela própria, as situações aflitivas dentro e em torno de si. Sofrimento pelo sofrimento: donde já se viu? A finalidade da lei não é o sofrimento, é o aprendizado. Ao trabalhar pelo bem, a ordem e a harmonia, o espírito terá tempo de solucionar com tranquilidade os equívocos aos quais se entregou em seus excessos quando encarnado sendo convidado a trabalhar, oferecendo à vida o que de melhor possui.

Texto extraído do livro Aruanda de Robson Pinheiro

17 de agosto de 2013



Osun Osogbo


Osogbo é a capital e a maior cidade do estado de Osun, na Nigéria. Localiza-se no sudoeste do país e tem cerca de 1379 mil habitantes. Acredita-se que a cidade foi fundada por volta de 400 anos atrás e é dividida em 16 reinos. A maior mudança em Osogbo se deu em meados do século XIX através da introdução do islamismo e do cristianismo. Por um tempo, as três religiões coexistiram, porém com o passar do tempo, tornou-se menos na moda ser identificado com os cultos Ogboni e Osun. Osun Osogbo ou Bosque Sagrado de Osun Osogbo é uma floresta sagrada situada às margens do Rio Osun. Na década de 1950 as mudanças políticas e religiosas combinadas foram tendo um efeito negativo sobre a cidade e principalmente sobre o Bosque: responsabilidades habituais e sanções foram enfraquecendo, santuários estavam sendo negligenciados e sacerdotes tradicionais começaram a desaparecer. Tudo isso foi agravado por um aumento no saque de estátuas e esculturas móveis para alimentar um mercado de antiguidades. Nessa época, parte do bosque foi adquirido pelo Ministério da Agricultura e Florestas para experimentos agrícolas. Árvores foram derrubadas e plantações foram estabelecidas, esculturas foram roubadas e a caça e a pesca começaram a ser liberadas, sendo antes proibidas no bosque sagrado. Foi neste ponto crucial da história do Bosque que o austríaco Suzanne Wenger mudou-se para Osogbo e, com o incentivo do Obá e o apoio da população local, formaram o movimento da Nova Arte Sacra para desafiar especuladores de terras, repelir os caçadores furtivos, proteger o santuário e começar o longo processo de trazer o lugar sagrado de volta à vida. Os artistas criaram esculturas grandes, pesados ​​e fixas em ferro, cimento e lama, ao invés das esculturas menores feitas de madeira, a fim de que suas formas arquitetônicas ajudassem a proteger o bosque de roubos.

Esculturas do Bosque
Em 1992 o Bosque foi estendido e conta agora com 75 hectares protegidos. Considerada a morada de Oxum, a paisagem do Bosque é pontilhada com santuários e templos, esculturas e obras de arte em honra a Oxum e outras divindades. O bosque tem 40 santuários e nove pontos de adoração específicos à beira do rio. Possui cinco divisões principais sagradas associados a diferentes cultos. Há também pinturas nas paredes e tetos decorativos feitos a partir de folhas de palmeira. Há dois palácios: O primeiro faz parte do principal santuário de Osun Osogbo e o segundo é o lugar para onde Laro mudou-se e estabeleceu um novo assentamento fora do bosque. Ambos os edifícios são construídos com paredes de barro e telhados de lata apoiadas por lama e pilares de madeira esculpida. Anualmente é realizado no Bosque o “The Annual Osun Osogbo”, um festival com duração de 12 dias realizado uma vez por ano, no final de julho e início de agosto. O festival tem como intuito invocar os espíritos dos reis ancestrais, reafirmar e renovar os laços entre as divindades representadas no Bosque junto ao povo de Osogbo. Essa festa anual de oferendas a Oxum é uma comemoração pela chegada de Laro, cuja lenda nos conta que depois de muitas atribulações, achando o local favorável para o estabelecimento de uma cidade, Laro ali se fixou com sua gente. Alguns dias depois de sua chegada, uma de suas filhas foi banhar-se no rio e desapareceu nas águas. Reapareceu no dia seguinte, soberbamente vestida, declarando ter sido muito bem acolhida pela divindade do rio. Laro, para demonstrar sua gratidão, dedicou-lhe oferendas. Numerosos peixes, mensageiros da divindade, vieram comer, em sinal de aceitação,as comidas que Laro havia jogado nas águas. Um grande peixe, que nadava próximo ao local onde este se encontrava, cuspiu-lhe água. Laro recolheu esta água numa cabaça e bebeu, fazendo assim um pacto de aliança com o rio. Estendeu, depois, as mãos para frente e o grande peixe saltou sobre elas. Laro recebeu o título de Atáója (contração da frase yoruba “A téwó gbáà eja” = Ele estende as mãos e recebe o peixe) e declarou: "Òsun gbo" = Oxum está em estado de maturidade, suas águas serão sempre abundantes. Atulamente, no dia do festival o atual Atáója vai solenemente até as margens do rio com a cabeça coberta por uma coroa monumental feita com pequenas miçangas reunidas e  vestido com pesada roupa de veludo. Anda com calma e gravidade, rodeado por suas mulheres e seus dignitários. Nessa procissão, uma de suas filhas leva a cabaça contendo os objetos sagrados de Oxum. É a “Arugbá Òsun” = aquela que leva a cabaça de Oxum. Ela representa a moça que outrora desapareceu no rio. Sua pessoa é sagrada, e o próprio rei inclina-se à sua frente. Depois que atinge a idade da puberdade, ela não pode mais preencher esta função. Mas, pela graça de Oxum, a descendência de Atáója é sempre numerosa, não faltando, pois, a possibilidade de se encontrar uma Arugbá Òsun disponível. 

Arugbá
O Atáója senta-se então numa clareira e acolhe as pessoas que vêm assistir à cerimônia. Os reis e os chefes das cidades vizinhas estão todos presentes ou enviam representantes. As delegações chegam, uma após a outra, acompanhadas de músicos. Trocas de saudações e danças sucedem-se como formas de cortesia recíprocas, com animação crescente. Ao final da manhã, Atáója acompanhado de seu povo e dos seus hóspedes, aproxima-se do rio e manda lançar oferendas e comidas, no mesmo lugar onde Laro fizera outrora. A seguir, Atáója dirige-se até as proximidades de um templo vizinho e senta-se sobre Òkúta Laro, uma pedra onde o seu ancestral Laro teria repousado em outros tempos. A adivinhação é para saber se Oxum está satisfeita ou se ela tem vontades a exprimir. Atáója então volta para a clareira, onde recebe e trata os seus convidados com uma generosidade comparada com a de Oxum, a Rainha dos rios.

Estrada que leva ao Bosque















Festival anual de Osun Osogbo:









15 de agosto de 2013

Babaçuê


Babaçuê é um culto religioso popular no Norte e Nordeste do Brasil em especial nos estados do Amazonas e do Pará. Também chamado de Batuque de Santa Bárbara ou Batuque de Mina, cultua tanto Orixás como Voduns. Como Batuque de Santa Bárbara, cultua os Orixás Nagôs Iansã e Xangô, a primeira protegendo as mulheres e o segundo, os homens; e na versão Batuque de Mina, cultua os Voduns. Através dos cânticos que recebem o nome genérico de doutrina, agrupa tradições religiosas negro africanas, nagôs e jejes, bem como crenças recebidas da pajelança. 

Xambá

A Nação Xambá é uma religião afro-brasileira ativa em Olinda, Pernambuco. Apesar de algumas pessoas afirmarem que o culto Xambá no Brasil está praticamente extinto, o mesmo ainda permanece vivo mantendo seus ritos, mitos e tradição. Apesar de os Orixás serem praticamente os mesmos do Candomblé, existe diferença na sua forma de culto. Os orixás cultuados na tradição Xambá são: Exu, Ogum, Odé, Ibeji, Nanã, Obaluaiê, Ewá, Xangô, Oyá, Obá, Afrekete, Oxum, Iemanjá e Orixalá. Os toques são sempre as 16 horas da tarde, e em todos eles é servido aos filhos de santo da casa e aos convidados um café com manguzá (iguaria feita de grãos de milho branco cozidos em caldo açucarado com leite de coco e canela) que é tradição da casa. Diversos autores apontam o povo Xambá ou Tchambá, como povos que habitavam a região ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, onde existem várias famílias com esse nome, tendo inclusive participado nas lutas pela independência daquele país.

13 de agosto de 2013



Xangô do Nordeste

Também conhecido como Xangô do Recife, Xangô de Pernambuco ou Nagô Egbá, o Xangô do Nordeste é o nome como é conhecida a prática do Candomblé em Pernambuco e Alagoas. Isso se deve ao fato da  popularidade e importância de Xangô nessa região, e talvez porque lá existissem muitos filhos de Xangô entre os negros que vieram trazidos de África. Há quem diga que talvez estejamos diante do Orixá mais cultuado e respeitado no Brasil. Isso porque foi ele o primeiro Deus Iorubano, por assim dizer, que pisou em terras brasileiras. A palavra “Xangô” significa Senhor do Raio, Senhor das Almas. Xa = Senhor, dirigente. Angô = Raio, fogo, alma. Na África, se uma casa é atingida por um raio, o seu proprietário paga altas multas aos sacerdotes de Xangô, pois se considera que ele incorreu na cólera do mesmo. Logo depois os sacerdotes vão revirar os escombros e cavar o solo em busca das pedras-de-raio formadas pelo relâmpago, pois seu axé está concentrado principalmente naquelas resultantes da destruição provocada pelos raios.


3 de agosto de 2013

Pretos Velhos e seus nomes

Pretos Velhos são entidades que se apresentam como velhos africanos que viveram nas senzalas como escravos e que morreram no tronco ou de velhice, e adoram contar as histórias do tempo do cativeiro. São entidades que tiveram pela sua idade avançada, o poder e o segredo de viver longamente através da sua sabedoria e apesar da rudeza do cativeiro demonstram fé para suportar as amarguras da vida. São mandingueiros poderosos, sentados em seus banquinhos, fumando seu cachimbo, benzendo com seu ramo de arruda, rezando com seu terço e aspergindo sua água fluidificada, são os mestres da sabedoria e da humildade. Os Pretos Velhos apresentam-se com nomes que permitem identificar a sua Nação de origem, tal como acontecia na época da escravidão:

- Aruanda
Ex: Pai Francisco de Aruanda. Refere-se a Pretos Velhos ativos na linha de Oxalá.

- Calunga, Cemitério ou das Almas
Ex: Pai Francisco da Calunga, Pai Francisco do Cemitério ou Pai Francisco das Almas. Refere-se a Pretos Velhos ativos na linha de Omulu.

- Congo
Ex: Pai Francisco do Congo. Refere-se a Pretos Velhos ativos na linha de Iansã.

- D’Angola
Ex: Pai Francisco D’Angola. Refere-se a Pretos-Velhos ativos na linha de Ogum.

- Matas
Ex: Pai Francisco das Matas. Refere-se a Pretos-Velhos ativos na linha de Oxóssi.

Alguns nomes de Pretos-Velhos:
Pai João, Pai Joaquim, Pai José, Pai Francisco, Pai Jacó, Pai Benedito, Pai Anastácio, Pai Jorge, Pai Luís, Pai Maneco, Pai Mané,  Pai António, Pai Cipriano, Pai Roberto, Pai Tomás, Pai Guiné, Pai Jobim, Velho Liberato...
Alguns nomes de Pretas Velhas:
Maria Conga, Vó Catarina, Mãe Maria, Mãe Cambina, Mãe Sete Serras, Mãe Cristina, Mãe Mariana, Mãe Cambinda, Vó Cecília, Vó Quitéria, Vó Ana, Maria Redonda, Vovó Maria Conga, Vovó Rita, Vovó Joana...

1 de agosto de 2013

Iemanjá era casada com Oduduá com quem tinha dez filhos Orixás. Por amamentá-los, ficou com seios enormes. Impaciente e cansada de morar na cidade de ifé, ela saiu em rumo oeste, e conheceu o Rei Okerê. Logo se apaixonaram e casaram-se. Envergonhada de seus seios, Iemanjá pediu ao esposo que nunca a ridiculariza-se por isso. Ele concordou; porem, um dia, embriagou-se e começou a gracejar sobre os enormes seios da esposa. Entristecida, Iemanjá fugiu. Durante a fuga, ela caiu quebrando um pote que continha uma poção, que seu pai lhe dera para casos de perigo. A poção transformou-a num rio cujo leito seguia em direção ao mar. Ante o ocorrido, Okerê, que não queria perder a esposa, transformou-se numa montanha para barrar o curso das águas. Iemanjá pediu ajuda ao filho Xangô, e este, com um raio, partiu a montanha no meio; o rio seguiu para o oceano e, dessa forma, a Orixá tornou-se a Rainha do mar.
Logo que todos os Orixás chegaram à terra, organizavam reuniões das quais mulheres não podiam participar. Oxum, revoltada por não poder participar das reuniões e das deliberações, resolve mostrar seu poder e sua importância tornando estéreis todas as mulheres, secando as fontes, tornando assim a terra improdutiva. Olodumaré foi procurado pelos Orixás que lhe explicaram que tudo ia mal na terra, apesar de tudo que faziam e deliberavam nas reuniões. Olodumaré perguntou a eles se Oxum participava das reuniões, foi quando os Orixás lhe disseram que não. Explicou-lhes então, que sem a presença de Oxum e do seu poder sobre a fecundidade, nada iria dar certo. Os Orixás convidaram Oxum para participar de seus trabalhos e reuniões, e depois de muita insistência, Oxum resolve aceitar. Imediatamente as mulheres tornaram-se fecundas e todos os empreendimentos e projetos obtiveram resultados positivos. Oxum é chamada Iyalodê, título conferido à pessoa que ocupa o lugar mais importante entre as mulheres da cidade.
Olodumaré entregou a Oxalá o saco da criação para que ele criasse o mundo. Porém essa missão não lhe dava o direito de deixar de cumprir algumas obrigações para outros Orixás e Bará, aos quais ele deveria fazer alguns sacrifícios e oferendas. Oxalá se pôs a caminho apoiado em seu Opaxorô. No momento em que deveria ultrapassar a porta do além, encontrou-se com Bará que, descontente porque Oxalá se negara a fazer suas oferendas, resolveu vingar-se provocando em Oxalá uma sede intensa. Oxalá não teve outro recurso senão o de furar a casca de um tronco de um dendezeiro para saciar a sua sede. Era o vinho de palma o qual Oxalá bebeu intensamente, ficou bêbado, não sabia onde estava e caiu adormecido. Apareceu então Olófin Odùduà que vendo o grande Orixá adormecido roubou-lhe o saco da criação e em seguida foi a procura de Olodumaré, para mostrar o que teria achado e contar em que estado Oxalá se encontrava. Olodumaré disse então que se Oxalá estava neste estado, que ele mesmo, Odùduà, fosse criar o mundo. Odùduà foi então em busca da criação e encontrou um universo de água, e aí deixou cair do saco o que estava dentro, era terra. Formou-se então um montinho que ultrapassou a superfície das águas. Então ele colocou a galinha cujos pés tinham cinco garras. Ela começou a arranhar e a espalhar a terra sobre a superfície da água, onde ciscava cobria a água, e a terra foi alargando cada vez mais, o que deu origem a cidade Ilê Ifê. Odùduà ali se estabeleceu, seguido pelos outros Orixás e tornou-se assim rei da terra. Quando Oxalá acordou, não encontrou mais o saco da criação. Despeitado, procurou Olodumaré, que por sua vez proibiu, como castigo a Oxalá e toda sua família, de beber vinho de palma e de usar azeite de dendê. Mas como consolo lhe deu a tarefa de modelar no barro o corpo dos seres humanos nos quais ele, Olodumaré insuflaria a vida.

31 de julho de 2013

Chegando de viagem à aldeia onde nascera, Xapanã viu que estava acontecendo uma festa com a presença de todos os Orixás. Porém, ele não podia entrar na festa, devido à sua medonha aparência. Então ficou espreitando pelas frestas do terreiro. Ogum, ao perceber a angústia do Orixá, cobriu-o com uma roupa de palha, com um capuz que ocultava seu rosto doente, e convidou-o a entrar e aproveitar a alegria dos festejos. Apesar de envergonhado, Xapanã entrou, mas ninguém se aproximava dele. Iansã tudo acompanhava com o rabo do olho. Ela compreendia a triste situação de Xapanã e dele se compadecia. Iansã esperou que ele estivesse bem no centro do barracão. O xirê estava animado, os orixás dançavam alegremente. Iansã chegou então bem perto dele e soprou suas roupas de palha com seu vento. Nesse momento de encanto e ventania, as feridas de Xapanã pularam para o alto, transformadas numa chuva de pipocas, que se espalharam brancas pelo barracão. Xapanã, o Deus das doenças, transformara-se num jovem belo e encantador. Assim eles tornaram-se grandes amigos e reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos dos mortos, partilhando o poder único de abrir e interromper as demandas dos mortos sobre os homens. 
Existiam num reino dois pequenos príncipes gêmeos que traziam sorte a todos. Os problemas mais difíceis eram resolvidos por eles; em troca, pediam doces balas e brinquedos. Esses meninos faziam muitas traquinagens e, um dia, brincando próximos a uma cachoeira, um deles caiu no rio e morreu afogado. Todos do reino ficaram muito tristes pela morte do príncipe. O gêmeo que sobreviveu não tinha mais vontade de comer e vivia chorando de saudades do seu irmão, pedia sempre a Orumilá que o levasse para perto do irmão. Sensibilizado pelo pedido, Orumilá resolveu levá-lo para se encontrar com o irmão no céu, deixando na terra duas imagens de barro. Desde então, todos que precisam de ajuda deixam oferendas aos pés dessas imagens para ter seus pedidos atendidos.
Fazia muito tempo que Obatalá admirava a inteligência de Orumilá. Em mais de uma ocasião Obatalá pensou em entregar a Orumilá o governo do mundo. Pensou em entregar-lhe o governo dos segredos que dirigem o mundo e a vida dos homens. Mas quando refletia sobre o assunto acabava desistindo pois Orumilá, apesar da seriedade de seus atos, era muito jovem para missão tão importante. Um dia, Obatalá quis saber se Orumilá era tão capaz quanto aparentava e lhe ordenou que preparasse a melhor comida que pudesse ser feita. Orumilá preparou uma língua de touro e Obatalá comeu com prazer. Obatalá então, perguntou a Orumilá por qual razão língua era a melhor comida que havia. Orumilá respondeu: “Com a língua se concede axé, se ponderam as coisas, se proclama a virtude, se exaltam as obras e com seu uso os homens chegam à vitória”. Após algum tempo, Obatalá pediu a Orumilá para preparar a pior comida que houvesse. Orumilá lhe preparou a mesma iguaria, língua de touro. Surpreso, Obatalá lhe perguntou como era possível que a melhor comida que havia fosse agora a pior. Orumilá respondeu: “Porque com a língua se caluniam as pessoas, se destrói a boa reputação e se cometem as mais repudiáveis vilezas”. Obatalá ficou maravilhado com a inteligência e precocidade de Orumilá e nesse momento entregou a Orumilá o governo dos segredos. Orumilá foi nomeado babalawó, palavra que na língua dos Orixás quer dizer "Pai do segredo".

Obatalá

Oxalá
Obatalá, também chamado de Orixalá, Obarixá, Oba Igbo ou Baba Igbo, é o mais velho de todos os Oxalás, o grande rei do branco, raiz de todos os outros Oxalás, o mais poderoso, pai dos deuses e dos homens, pai em particular de Oxalufã, que por sua vez é o pai de Oxaguiã. Tão grande e tão poderoso é Obatalá, que assim como Odudúa aparece no Candomblé como qualidade de Orixá, e não se manifesta. Evoca-se sobretudo a idéia de algo quente e seco, devendo ser refrescada e molhada para tornar-se fértil, tal é o sentido das cerimônias chamadas de “Águas de Oxalá” que começam com a procissão que vai buscar em potes na fonte, a água que será derramada sobre o assento de Oxalá. Se Obatalá, divindade masculina, criou os seres vivos, Odudúa, divindade feminina criou a matéria de onde surgiria a vida. Nas suas qualidades de divindades da criação e da cabaça, Odudúa é como Obatalá uma divindade funfun, e suas sacerdotisas vestem-se de branco. As palavras de Obatalá transformam-se imediatamente em realidade. Obatalá é o Orixá que representa o ar e as águas frias e imóveis do início do mundo. Controla a formação de novos seres, é o senhor dos vivos e dos mortos, preside o nascimento, a iniciação e a morte. Foi ele quem deu a palavra ao homem, mas durante suas festas não se fala. Tudo é silêncio, pois a palavra é dele. Obatalá é quem rege tudo o que é branco, representando a pureza por excelência.  Obatalá representa a energia da claridade, a estabilidade mental. É o Orixá que é fonte de tudo que é puro, sábio, aprazível e compassivo. Mas apesar de toda a sua pureza, tem também seu aspecto guerreiro, por meio do qual impõem justiça ao mundo. Ele representa as leis, a procriação de tudo o que tem vida na Terra e é a divindade da paz e da verdadeira justiça para com os homens, pois é o único que nos julga de forma consciente.
Uma lenda nos conta que fazia muito tempo que Obatalá admirava a inteligência de Orumilá. Em mais de uma ocasião Obatalá pensou em entregar a Orumilá o governo do mundo. Pensou em entregar-lhe o governo dos segredos que dirigem o mundo e a vida dos homens. Mas quando refletia sobre o assunto acabava desistindo pois Orumilá, apesar da seriedade de seus atos, era muito jovem para missão tão importante. Um dia, Obatalá quis saber se Orumilá era tão capaz quanto aparentava e lhe ordenou que preparasse a melhor comida que pudesse ser feita. Orumilá preparou uma língua de touro e Obatalá comeu com prazer. Obatalá então, perguntou a Orumilá por qual razão língua era a melhor comida que havia. Orumilá respondeu: “Com a língua se concede axé, se ponderam as coisas, se proclama a virtude, se exaltam as obras e com seu uso os homens chegam à vitória”. Após algum tempo, Obatalá pediu a Orumilá para preparar a pior comida que houvesse. Orumilá lhe preparou a mesma iguaria, língua de touro. Surpreso, Obatalá lhe perguntou como era possível que a melhor comida que havia fosse agora a pior. Orumilá respondeu: “Porque com a língua se caluniam as pessoas, se destrói a boa reputação e se cometem as mais repudiáveis vilezas”. Obatalá ficou maravilhado com a inteligência e precocidade de Orumilá e nesse momento entregou a Orumilá o governo dos segredos. Orumilá foi nomeado babalawó, palavra que na língua dos Orixás quer dizer "Pai do segredo".
Umbanda

Certo dia Iansã, Oxum e Iemanjá resolveram ir juntas ao mercado de Oyó fazer compras. Lá chegando, tomaram conhecimento das novidades trazidas pelos mercadores como tecidos, contas e especiarias diversas. Nesse instante, Bará chega no mercado trazendo uma cabra. Ele pára e observa de longe as três mulheres conversando animadamente, e resolve fazer uma prova entre elas, o que constitui uma de suas características. Aproxima-se das três dizendo: "Eu vou deixar a cidade para um importante negócio com meu amigo Orumilaia. Assim, eu lhes peço que vendam minha cabra e em troca eu darei a vocês metade do valor. Como o preço são vinte búzios, eu darei dez para vocês e dez ficarão para mim". Elas aceitaram e Bará partiu. Logo a cabra foi vendida por vinte búzios. Elas separaram dez búzios para Bará e começaram a dividir os dez restantes entre elas.
Iemanjá iniciou a divisão. Ficaram três búzios para cada uma delas, mas sobrou um. Iansã então, tomou a iniciativa. Fez três pilhas e em cada uma colocou três búzios, porém da mesma forma sobrou um. Depois disto foi a vez de Oxum, mas continuava sobrando um. E as três começaram a discutir acerca de quem poderia pegar a porção maior. Iemanjá dizia: "É justo que a mais velha deva pegar a porção maior. Portanto, eu ficarei com o búzio extra." Oxum replicou: "Não, onde eu nasci, nas terras de Oxogbo, diz-se que o mais novo é sempre tratado com mais generosidade. Assim, o búzio extra deverá ser meu." Até que Iansã tomou a palavra: "O assunto está em disputa. Tem-se dito que, nesses casos de disputas entre os mais velhos com os mais novos, a maior porção deverá ir para aquele que está entre os dois lados. Em Irá, de onde eu vim, é assim que se faz. Portanto, o búzio que está sobrando deve ser meu." E a discussão se acentuou. Como não conseguiram chegar a uma conclusão, pediram a um homem do mercado fazer a divisão. Ele disse: "Dez não pode ser dividido em três partes iguais. Sempre sobra um. Quem merece ficar com ele? De acordo com o que eu tenho escutado, é a pessoa mais velha, porque é mais antiga no mundo e, consequentemente, a que tem sofrido mais do que as outras. A minha conclusão é de que o búzio deve ser dado à pessoa mais velha dentre vocês". Iansã e Oxum rejeitaram seus conselhos e recusaram dar à Iemanjá  a parte maior. Outra pessoa foi convidada a fazer a divisão dos búzios. Começou a contá-los e disse: "Não existe maneira de fazer esta divisão. Sempre sobrará um búzio. Quem deve ficar com ele? Penso que, numa situação desta natureza, a pessoa mais nova é que deve ser a favorecida, porque os jovens estão no mundo há pouco tempo e têm recebido menos benefícios que os outros. Os mais novos são empurrados de lado nos grandes movimentos, os caçadores jovens andam sempre atrás, e as esposas mais jovens têm a vida mais árdua. Por isso, quando surge uma divisão desigual, a pessoa mais jovem merece a vantagem". Iemanjá e Iansã não concordaram. Disseram: "Nós nunca ouvimos tal afirmação. Não podemos aceitar isso". Um outro homem foi chamado entre aqueles que estavam no mercado. Contou os búzios, separou três a três, deixando o último búzio à parte, e falou: "Diz-se que a pessoa mais velha deve pegar a porção extra, enquanto outros dizem que é a mais jovem que deve receber a porção maior. Assim, creio que nem para a mais velha, nem para a mais nova, mas sim para aquela que estiver entre as duas. Iansã é mais velha que Oxum e mais nova que Iemanjá. Deste modo ela apresenta as condições ideais. Deem a ela o búzio extra". Mas Iemanjá e Oxum não aceitaram seus conselhos e se recusaram a dar o búzio para Iansã, continuando a divisão sem solução, até que a discussão entre todos se tornou mais acirrada. Neste instante chegou Bará. Aproximou-se das três e perguntou onde estava a parte dele da venda da cabra. Elas lhe entregaram os dez búzios e, ao mesmo tempo, pediram o seu conselho para a divisão entre elas, em partes iguais. Bará ficou alguns instantes pensativo e, depois, tomou em suas mãos os dez búzios, separou três e deu à Iemanjá, mais três e entregou à Iansã, e os outros três deu para Oxum. Ficando com o décimo búzio em sua mão, ajoelhou-se e fez um pequeno buraco no chão, colocando nele o búzio. Depois o cobriu com a terra e disse: "Este búzio é para os ancestrais, senhores da terra e deve ser enterrado porque o solo é a morada das divindades. No orum era assim que fazíamos. Sempre que alguém recebia algo bom, devia se lembrar daqueles que o haviam antecedido. Quando as colheitas são trazidas dos campos, a primeira divisão deve ser dada sempre para os ancestrais. Quando se realiza uma festa, uma porção deve ser separada para os ancestrais. Assim também com o dinheiro. Quando ele vem até nós, devemos dar parte aos ancestrais. Esta é a maneira que fazíamos no orum e que deveria ser feita também aqui na terra. Vocês deveriam ter lembrado disto em vez de disputar o búzio que sobrava da divisão". Iemanjá, Iansã e Oxum ouviram atentamente o que Bará acabara de dizer e admitiram que ele estava certo, concordando em aceitar os três búzios. Por causa do que aconteceu no mercado de Oyó, o povo, daquele dia em diante, passou a dar uma parte aos ancestrais todas as vezes que faziam as colheitas novas ou recebiam fortunas inesperadas.
Obá vivia em companhia de Oxum e Iansã, no reino de Oyó, como uma das esposas de Xangô, dividindo a preferência do reverenciado Rei. Obá percebia o grande apreço que Xangô tinha por Oxum, que mimosa e dengosa, atendia sempre a todas as preferencias do Rei, sempre servindo e agradando aos seus pedidos. Ela resolveu então, perguntar para Oxum qual era o grande segredo que ela tinha, para que levasse a preferencia do amor de Xangô, uma vez que Iansã andava sempre com o Rei em batalhas e conquistas de reinados e terras, pelo seu gênio guerreiro e corajoso e Obá era sempre desprezada e deixada por último na lista das esposas de Xangô. Oxum então, matreira e esperta, falou que seu segredo era em como preparar o amalá de Xangô, principal comida do Rei. Obá, como uma menina ingênua, escutou e registrou todos os ingredientes que Oxum falava e que eram de extrema importância para a realização de tal culinária, sendo que por fim, Oxum falou que além de tudo isso, tinha cortado e colocado uma de suas orelhas na mistura do amalá para enfeitiçar Xangô, sendo que nesse momento ela usava um pano amarrado a cabeça, escondendo suas orelhas. Obá agradeceu a sinceridade e em grande sinal de amor pelo seu Rei, preparou um grande amalá, e por fim cortou uma de suas orelhas colocando na mistura e oferecendo à Xangô como gesto de seu sublime amor. Xangô ao receber a comida, percebeu a orelha de Obá na mistura, e bravejou e gritou.Continuava então a guerra entre Oxum e Obá, só que agora muito mais séria, Xangô como não aguentava mais tanta discussão, resolve matar ambas, que saem correndo pelo mato, transformando-se em rios. E hoje nota-se que o encontro entre os rios Oxum e Obá, na África, são revoltos.
Ifá foi consultado por Orumilá que estava partindo da terra para o céu indo apanhar todas as folhas. Quando Orumilá chegou ao céu Olódùmaré disse: - Eis todas as folhas que queria pegar. O que fará com elas? Orumílá respondeu que iria usá-las para beneficio dos seres humanos, e todas as folhas que ele estava pegando, ele carregaria para a Terra. Quando chegou no meio do caminho entre o céu e a terra, ele encontrou Ossanhe e perguntou: - Ossanhe onde vai? -Vou ao céu, vou buscar folhas e remédios. Orumilá disse que já havia ido buscar as folhas no céu e ele poderia fazer remédios com elas, porém não conhecia seus nomes. Foi Orumilá quem deu nome a todas as folhas, e disse pra Ossanhe que carregasse todas as folhas para a terra. Foi assim que Orumilá entregou todas as folhas para Ossanhe e também ensinou a ele o nome das folhas apanhadas junto com todo o poder delas, o qual ele guardava em uma cabaça pendurada em um galho de árvore.  Um dia Xangô se queixou a sua mulher Iansã, que só Ossanhe conhecia o segredo de cada uma das folhas e que os demais Orixás estavam no mundo sem possuir nenhuma planta. Iansã levantou sua saia e agitou-a, um vento violento começou a soprar e derrubou a cabaça de Ossanhe no chão quebrando-a.
Ele, ao perceber o que aconteceu, gritou: -Ewê Ô! (Oh! As folhas! As Folhas!), mas não pôde impedir que os demais Orixás pegassem as folhas e as dividisse entre eles. Porém os Orixás não tinham o conhecimento das ervas e até hoje precisam de Ossanhe para usá-las em seus rituais, ficando seu segredo a salvo.

29 de julho de 2013

Conta-se que Odé era irmão de Ogum e de Bará, todos os três filhos de Iemanjá. Bará era indisciplinado e insolente com sua mãe e por isso ela o mandou embora. Os outros dois filhos se conduziam melhor. Ogum trabalhava no campo e Odé caçava na floresta das vizinhanças, de modo que a casas estava sempre abastecida de produtos agrícolas e de caça. Iemanjá, no entanto, andava inquieta e resolveu consultar um babalaô. Este lhe aconselhou proibir que Odé saísse à caça, pois se arriscava a encontrar Ossanhe, aquele que detém o poder das plantas e que vivia nas profundezas da floresta. Odé ficaria exposto a um feitiço de Ossanha para obrigá-lo a permanecer em sua companhia. Iemanjá exigiu então, que Odé renunciasse a suas atividades de caçador. Este, porém, de personalidade independente, continuou sua incursões à floresta. Ele partia com outros caçadores, e como sempre faziam, uma vez chegados junto a uma grande árvore (ìrokò), separavam-se, prosseguindo isoladamente, e voltavam a encontrar-se no fim do dia e no mesmo lugar. Certa tarde, Odé não voltou para o reencontro, nem respondeu aos apelos dos caçadores. Ele havia encontrado Ossanhe e este lhe dera para beber uma poção onde foram maceradas certas folhas, como amúnimúyè, cujo nome significa "apossa-se de uma pessoa e de sua inteligência", o que provocou em Odé uma amnésia. Ele não sabia mais quem era nem onde morava. Ficou, então, vivendo na mata com Ossanhe, como predissera o babalaô. Ogum, inquieto com a ausência do irmão, partiu à sua procura, encontrando-o nas profundezas da floresta. Ele o trouxe, mas Iemanjá não quis receber o filho desobediente. Ogum revoltado pela intransigência materna recusou-se a continuar em casa. Odé voltou para a companhia de Ossanhe, e Iemanjá desesperada por ter perdido seus filhos, transformou-se num rio, chamado Ògùn (não confundir com Ogum Orixá).

Iyá Mi Oxorongá - As feiticeiras

Donas de um axé tão poderoso como o de qualquer Orixá, as Iyá Mi tiveram o seu culto difundido por sociedades secretas de mulheres e são as grandes homenageadas no famoso festival Gèlèdè na Nigéria em louvor ao poder feminino ancestral, onde os homens se vestem de mulher e usam máscaras com características femininas, dançam para acalmar a ira e manter, entre outras coisas, a harmonia entre o poder masculino e o feminino. Os assentamentos das Iyá Mi ficam juntos as grandes árvores e geralmente são enterrados, mostrando a sua relação com os ancestrais, sendo também uma nítida representação do ventre. As Iyá Mi tornaram-se conhecidas como as senhoras dos pássaros e a sua fama de grandes feiticeiras associou-as à escuridão da noite; por isso também são chamadas Eleyé, e as corujas são os seus principais símbolos. Iyá Mi é a sacralização da figura materna, por isso o seu culto é envolvido por tantos tabus. O seu grande poder deve-se ao fato de guardar o segredo da criação. Tudo o que é redondo remete ao ventre e, por consequência, às Iyá Mi. As denominações de Iyá Mi expressam as suas características terríveis e mais perigosas e por essa razão os seus nomes nunca devem ser pronunciados, porém quando se disser um dos seus nomes, todos devem fazer reverencias especiais para aplacar a ira das Grandes Mães e, principalmente, para afugentar a morte. Quando devidamente cultuadas, manifestam-se apenas no seu aspecto benfazejo, não podendo, porém, serem esquecidas. Nesse caso, lançam todo o tipo de maldição e tornam-se senhoras da morte. Iyá Mi Oxorongá é a dona da barriga e não há quem resista aos seus ebós fatais, sobretudo quando ela executa o Ojiji, o feitiço mais terrível. Com Iyá Mi todo cuidado é pouco, ela exige o máximo respeito. A pena da coruja é utilizada em ritos das Iyá Mi, na finalidade de obter proteção contra os perversos espíritos da noite, ameaças e inveja. É este pássaro quem leva os feitiços até seus destinos. Ele é pássaro bonito e elegante, pousa suavemente nos tetos das casas, nos galhos das árvores, e é silencioso. Se as Iyá Mi dizem que é pra matar, eles matam, se elas dizem pra levarem os intestinos de alguém, levarão. Iyá Mi na forma de pássaro, a coruja rasgadeira, pousa nas árvores durante a noite, principalmente na jaqueira. Contam os antigos africanos que quando a coruja rasgadeira sobrevoa fazendo seu ruído característico ou aproxima-se de uma casa é porque alguém vai morrer. Conta a lenda que nos primórdios da criação, Olodumaré mandou vir ao aiyê três divindades: Ogum, deus do ferro, Obarixá senhor da criação dos homens e Odu, a única mulher entre eles. Todos eles tinham poderes, menos ela, que se queixou então a Olodumaré. Este lhe outorgou o poder do pássaro contido numa cabaça, e e ela se tornou então, através do poder emanado de Olodumarê, Ìyáwon, nossa mãe para eternidade, também chamada de Iyá Mi Oxorongá. Mas Olodumaré a preveniu de que deveria usar este grande poder com cautela, sob pena de ele mesmo repreendê-la. Porém ela abusou do poder do pássaro. Preocupado e humilhado, Obarixá foi até Orumilá fazer o jogo de Ifá, e ele o ensinou como conquistar, apaziguar e vencer Odu, através de sacrifícios, oferendas e astúcia. Obarixá e Odu foram viver juntos. Ele então lhe revelou seus segredos e, após algum tempo, ela lhe contou os seus, inclusive que adorava Egun, mostrando-lhe sua roupa, o qual não tinha corpo, rosto nem tampouco falava e juntos eles adoraram Egun. Aproveitando um dia que Odu saiu de casa, Obarixá modificou e vestiu a roupa de Egun que foi à cidade e falou com todas as pessoas. Quando Odu viu Egun andando e falando, percebeu que foi Obarixá quem tornou isto possível. Ela reverenciou e prestou homenagem a Egun e a Obarixá, conformando-se com a supremacia dos homens e aceitando para si a derrota. Ela mandou então seu poderoso pássaro pousar em Egun, e lhe outorgou o poder: tudo o que Egun disser acontecerá. Odu retirou-se para sempre do culto de Egungun. O conjunto homem-mulher dá vida a Egun, a ancestralidade, mas restringe seu culto aos homens, os quais, todavia, prestam homenagem às mulheres, castigadas por Olodumaré através dos abusos de Odu. 

Títulos das Iyá Mi

Agba: Mãe ancestral associada ao poder feminino
Ajé: Mãe administradora do poder sobrenatural. Este devido ao seu culto que é realizado na lua nova e utiliza de poderes sobrenaturais para combater a agressividade e o feitiço
Ako: Mãe que é o pássaro Ako. Título referente ao 3º dia da lua cheia e a seu culto na sociedade das Geledés. Título de quem assume o posto de primeira dama desta sociedade
Alaiye: Mãe proprietária de toda extensão terrestre
Apaki: Poderosa mãe que mata. Uma referência ao fato que ao decorrer da vida acontece a morte
Araiye: Mãe que controla todos os espíritos da terra, encarnados e desencarnados
Arajado: Mãe que olha para o céu. Uma referencia ao fato da terra estar coberta pelo céu
Asiwòró: Mãe canalizadora das energias nos ritos tradicionais
Ayala: Mãe esposa daquele que é o céu
Buruku: Poderosa mãe antiga. Uma referência ao planeta na sua antiguidade existencial
Egeleju: Mãe dos olhos delicados
Ekunlaiye: Mãe que inunda a terra com água
Eleje: Mãe proprietária do fluxo da vida o sangue
Elesenu: Mãe proprietária de todos os órgãos internos, vísceras
Eleye: Mãe proprietária dos pássaros
Ilunjó: Mãe que dança o ritmo da morte
Iya-Ori: Mãe das cabeças,uma alusão ao fato de está relacionada aos rituais de sacrifício animal sobre uma cabeça. Titulo que é também cultuada nos ritos de bori
Iyelala: Mãe senhora dos sonhos, relacionada a revelação de situações através de sonhos
Kekere: Mãe pequena do universo. Uma referência ao fato de Iyá Mi ser a administradora da vida na auxiliando Olodunmaré
Koko: Mãe anciã, uma referência à antiguidade do planeta
Logboje: Cabaça existencial no universo, uma referência ao planeta terra 
Malè: Poderosa mãe que não permite o mal chegar na noite, uma alusão as noites que sobrevoa na sua forma de pássaro nos lugares em que é invocada e reverenciada com louvores e saudações. Título este muito reverenciada nas rodas de Xangô e Egungun enquanto dançam em volta da fogueira ao ar livre, fato memorável ao poder sobrenatural que possibilita  Xangô como o grande Egungun ancestral voltar à terra possuindo seus Eleguns durante as festividades.
Naré: Poderosa como o próprio ventre
N'la: Grande Mãe, uma referência à grandeza do planeta terra e seu culto elementar
Oduwà: Mãe proprietária do recipiente da existência, o mundo
Oga Igi: Mãe que faz o alto das árvores de trono. Uma referência ao fato dos pássaros pousarem no cume das grandes árvores
Oloriyàmi: Mãe proprietária das águas, referência aos mares e a água do útero
Olotojú: Mãe que espia do alto ao fato dos pássaros pairarem no ar e observarem tudo de cima
Omolulu: Mãe rainha das formigas, ao fato de estar associada ao subsolo, título este em que é também cultuada no culto de Obaluaiê
Onilé: Mãe proprietária da terra, referente a reverência e aos rituais realizados dentro da terra. Outra referencia é o fato de ser o lugar mais próprio de se cultuar toda classe de espíritos, na qual ela é a grande apaziguadora desses espíritos ou forças rebeldes
Oru-Alé: Mãe da madrugada e da noite
Osupa: Mãe que controla as forças da lua
Oxorongá: Está sempre encolerizada e sempre pronta a desencadear sua ira contra os seres humanos. Está sempre irritada, seja ou não maltratada, esteja em companhia numerosa ou solitária, quer se fale bem ou mal dela, ou até mesmo que não se fale, deixando-a assim num esquecimento desprovido de glória. Tudo é pretexto para que Iyá Mi se sinta ofendida.
Petekun: Mãe que é povoada, uma referência a relação com Bará