1 de novembro de 2012

Tristeza dos Orixás

Certo dia na morada dos Orixás, quando o sol já tinha se posto e a lua tímida teimava em não iluminar com seus encantadores raios, Ogum, o Orixá das guerras saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu - se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram - se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso. Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe coruja quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:
- Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo?   
- Desculpe, eu ando meio ocupado, respondeu um triste Ogum.
- Mas, o que aconteceu? 
- Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a espada da lei que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das supostas demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles... Estou cansado...
Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de fé. Chorava por ninguém entender que se ele se mostrava protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existia um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele amava a humanidade, amava a vida, mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Infelizmente ele era entendido como o "Orixá da Guerra", um homem impiedoso que utiliza-se de sua espada para resolver qualquer situação. 
 Isso magoava Ogum. Como magoava: 
- Ah, filhos de fé, por que vocês esquecem que nossa religião é pura e simplesmente amor e devoção? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a espada da lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberba, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-a em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição? 
Então Ogum começou a retirar sua armadura, que representa a proteção e a firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado...  
Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não aguentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia como ele, o guardião da vida podia ser invocado para atentar contra ela. Magoava-se por sua falange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens. Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via-se o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que irradia de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam-se na senda do criador. Então uma tempestade começou a desabar, e todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas. Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás tão mal compreendidos. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxóssi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Um a um, todos foram despindo-se e pensando quanto os filhos de fé compreendiam erroneamente os Orixás.  
Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer. -Espere! Pensou Iemanjá. Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.  
E logo Iemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é Rei entre os Orixás. Oxalá então apresentou-se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu-se de sua roupa sagrada para igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:
- Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma religião séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de apenas prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também milhões no astral, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses incríveis filhos que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos que nos honram e nos enchem de alegria!
Quando Oxalá calou-se, os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas. Realmente sabiam que se poucos os compreendiam, grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros juntariam-se nesse ideal. E aquilo alegrou-os tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade. 
Em Aruanda, os caboclos, pretos-velhos, crianças, exus e pombas giras o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram-se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás. 
Vocês, filhos de fé, pensem bem! Não transformem nossa religião em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como "armas" para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Lembrem-se da simplicidade, do respeito, da responsabilidade e do puro sentimento. Lembrem - se disso. E quanto a todos aqueles, que lutam por uma religião séria, esclarecida e verdadeira, independente dos fundamentos seguidos, lembrem - se das palavras de Oxalá. Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade. Lembrem - se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança!

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