18 de abril de 2012

Divisão de búzios entre Iansã, Oxum e Iemanjá

Certo dia Iansã, Oxum e Iemanjá resolveram ir juntas ao mercado de Oyó fazer compras. Lá chegando, tomaram conhecimento das novidades trazidas pelos mercadores como tecidos, contas e especiarias diversas. Nesse instante, Exu chega no mercado trazendo uma cabra. Ele pára e observa de longe as três mulheres conversando animadamente, e resolve fazer uma prova entre elas, o que constitui uma de suas características. Aproxima-se das três dizendo: "Eu vou deixar a cidade para um importante negócio com meu amigo Orumilaia. Assim, eu lhes peço que vendam minha cabra e em troca eu darei a vocês metade do valor. Como o preço são vinte búzios, eu darei dez para vocês e dez ficarão para mim". Elas aceitaram e Exu partiu. Logo a cabra foi vendida por vinte búzios. Elas separaram dez búzios para Exú e começaram a dividir os dez restantes entre elas.
Iemanjá iniciou a divisão. Ficaram três búzios para cada uma delas, mas sobrou um. Iansã então, tomou a iniciativa. Fez três pilhas e em cada uma colocou três búzios, porém da mesma forma sobrou um. Depois disto foi a vez de Oxum, mas continuava sobrando um. E as três começaram a discutir acerca de quem poderia pegar a porção maior. Iemanjá dizia: "É justo que a mais velha deva pegar a porção maior. Portanto, eu ficarei com o búzio extra."
Oxum replicou: "Não, onde eu nasci, nas terras de Oxogbo, diz-se que o mais novo é sempre tratado com mais generosidade. Assim, o búzio extra deverá ser meu."
Até que Iansã tomou a palavra: "O assunto está em disputa. Tem-se dito que, nesses casos de disputas entre os mais velhos com os mais novos, a maior porção deverá ir para aquele que está entre os dois lados. Em Irá, de onde eu vim, é assim que se faz. Portanto, o búzio que está sobrando deve ser meu."
Iansã, Oxum e Iemanjá
E a discussão se acentuou. Como não conseguiram chegar a uma conclusão, pediram a um homem do mercado fazer a divisão. Ele disse: "Dez não pode ser dividido em três partes iguais. Sempre sobra um. Quem merece ficar com ele? De acordo com o que eu tenho escutado, é a pessoa mais velha, porque é mais antiga no mundo e, consequentemente, a que tem sofrido mais do que as outras. A minha conclusão é de que o búzio deve ser dado à pessoa mais velha dentre vocês". Iansã e Oxum rejeitaram seus conselhos e recusaram dar à Iemanjá  a parte maior. Outra pessoa foi convidada a fazer a divisão dos búzios. Começou a contá-los e disse: "Não existe maneira de fazer esta divisão. Sempre sobrará um búzio. Quem deve ficar com ele? Penso que, numa situação desta natureza, a pessoa mais nova é que deve ser a favorecida, porque os jovens estão no mundo há pouco tempo e têm recebido menos benefícios que os outros. Os mais novos são empurrados de lado nos grandes movimentos, os caçadores jovens andam sempre atrás, e as esposas mais jovens têm a vida mais árdua. Por isso, quando surge uma divisão desigual, a pessoa mais jovem merece a vantagem". Iemanjá e Iansã não concordaram. Disseram: "Nós nunca ouvimos tal afirmação. Não podemos aceitar isso". Um outro homem foi chamado entre aqueles que estavam no mercado. Contou os búzios, separou três a três, deixando o último búzio à parte, e falou: "Diz-se que a pessoa mais velha deve pegar a porção extra, enquanto outros dizem que é a mais jovem que deve receber a porção maior. Assim, creio que nem para a mais velha, nem para a mais nova, mas sim para aquela que estiver entre as duas. Iansã é mais velha que Oxum e mais nova que Iemanjá. Deste modo ela apresenta as condições ideais. Deem a ela o búzio extra". Mas Iemanjá e Oxum não aceitaram seus conselhos e se recusaram a dar o búzio para Iansã, continuando a divisão sem solução, até que a discussão entre todos se tornou mais acirrada. Neste instante chegou Exu. Aproximou-se das três e perguntou onde estava a parte dele da venda da cabra. Elas lhe entregaram os dez búzios e, ao mesmo tempo, pediram o seu conselho para a divisão entre elas, em partes iguais.
Exu ficou alguns instantes pensativo e, depois, tomou em suas mãos os dez búzios, separou três e deu à Iemanjá, mais três e entregou à Iansã, e os outros três deu para Oxum. Ficando com o décimo búzio em sua mão, ajoelhou-se e fez um pequeno buraco no chão, colocando nele o búzio. Depois o cobriu com a terra e disse: "Este búzio é para os ancestrais, senhores da terra e deve ser enterrado porque o solo é a morada das divindades. No orum era assim que fazíamos. Sempre que alguém recebia algo bom, devia se lembrar daqueles que o haviam antecedido. Quando as colheitas são trazidas dos campos, a primeira divisão deve ser dada sempre para os ancestrais. Quando se realiza uma festa, uma porção deve ser separada para os ancestrais. Assim também com o dinheiro. Quando ele vem até nós, devemos dar parte aos ancestrais. Esta é a maneira que fazíamos no orum e que deveria ser feita também aqui na terra. Vocês deveriam ter lembrado disto em vez de disputar o búzio que sobrava da divisão".
Iemanjá, Iansã e Oxum ouviram atentamente o que Exú acabara de dizer e admitiram que ele estava certo, concordando em aceitar os três búzios. Por causa do que aconteceu no mercado de Oyó, o povo, daquele dia em diante, passou a dar uma parte aos ancestrais todas as vezes que faziam as colheitas novas ou recebiam fortunas inesperadas.

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